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O crente Jekyll e Hyde e a perversidade virtual sob o manto do anonimato


 Danilo Fernandes


Eu já devia estar acostumado, mas não estou. Todos os dias o Genizah recebe algo em torno de 90-120 comentários em seus textos. Destes, em média, 15% são rejeitados por diversas razões: palavrões; agravos racistas e homofóbicos; ofensas desqualificando o autor em nível além do aceitável; etc.

Há outras razões menos óbvias: Em alguns casos eu exerço o meu direito de não aceitar determinadas defesas teológicas que de tão desprezíveis, não desejo contribuir para a sua disseminação ao publicá-las aqui. Em outros casos, simplesmente não gosto da atitude do comentarista e deleto prontamente.

Enfim... Recebemos muitos comentários e eu não tenho condições de ler e moderar tudo. Há um limite para o tempo que posso dedicar ao Genizah – não fosse assim, não faria outra coisa. Contudo, para a “nossa alegria” temos muitos colaboradores escrevendo e também gente de bom coração que faz um trabalho que ninguém vê ou valoriza como moderar os comentários. Joana, minha assistente é um destes anjos. A queridíssima Rilda Freitas é outro anjo. Há outros, ainda, que com base nos comentários e/ou e-mails com pedidos de ajuda oferecem aconselhamento pastoral aos leitores.

Neste fim de ano, muitos trabalham muito -meu caso. Outros estão de férias. A consequência prática para este humilde sítio é que nos últimos dias as aprovações dos comentários atrasaram. Acumulamos mais de 300 comentários presos, aguardando moderação, na última terça-feira. Neste mesmo dia, a noite, cansado de viagem, ao abrir o painel de moderação dou de cara com a pérola a seguir. Sinto muitíssimo pela linguagem chula, mas ao expor tal comentário busco dar peso a esta admoestação que é para o bem:




O que mais me assustou neste comentário não foi a “violência verbal” per se ou o arremedo de teologia por trás da bruxaria vingativa, mas a revelação de um lado obscuro da alma, a banda podre do ser, onde o mal domina. O reino do pecado. Os sinais da queda.


De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem.Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim.

Romanos 7:17-20

Para além das palavras do apóstolo Paulo, lembro das Confissões de Agostinho de Hipona, onde o grande teólogo tão bem descreveu a nossa natureza caída e escravizada pelo pecado. Agostinho nos conta do grande prazer que tinha ao roubar, na companhia de seus amigos de farra, as peras do pomar do vizinho, na ânsia de matar a fome vinda no fim das noitadas de sua juventude. Logo adiante, o mesmo Agostinho confessa que nem ao menos era tão grande apreciador de peras, de fato, em seu próprio pomar, nos fundos de sua casa, cresciam peras e outras frutas muitíssimo mais suculentas do que as do vizinho. Contudo, havia a saborosa perversão do ato de roubar a fruta alheia. Imprimir o mal ao outro e, protegido pela clandestinidade, observar a miséria e o desespero do que se viu surrupiado de sua preciosa colheita... Este era um prazer que sobrevinha às delícias do banquete produzido pelo roubo e que afogava todo o sentimento de culpa. Sem o incômodo do Espirito Santo, era o império do puro gozo maligno, sem qualquer outro fundamento ou ganho real.

Somos perversos. E tanto piores somos quanto mais religiosos nos fazemos. Tendemos fortemente a hipocrisia. E os “crentes” e os líderes religiosos são os que mais devem se cuidar. Trilham a vereda estreitíssima. Que se cuidem para não escorregar e cair, pois quando se deixam levar pelo consolo do prazer da aceitação social advindo da atuação teatral da falsa bondade, da falsa piedade, da espiritualidade 24h –em posturas que não resistem a um olhar no espelho- tipificadas na falsidade dos hipócritas... Ai começa o fim.

Se há algo de bom em nós é pela Graça. Nossa generosidade, solidariedade, misericórdia, senso de justiça... É o Espírito em nós!

Nossas escolhas, nossa agenda, nossas prioridades só tem valor quando concordamos com o Pai, sem rebeldia. Sem resistência. E se não fazemos a vontade do Pai e ainda nos iludimos na mentira, na falsa santidade somos que como loucos. Da Trindade nada se esconde. A hipocrisia nos sufoca, nos afasta de Deus e se revela, de uma forma ou de outra, a quem está em Cristo.

Hipocrisia. A face típica dos religiosos desde os tempos em que o próprio Jesus encarnado os chamou de filhos de uma geração adúltera (filhos da puta, em bom português corrente), serpentes, lobos. Hipocrisia: O pecado mais denunciado por Jesus.

Seria o autor do comentário acima um destes hipócritas religiosos ou apenas um mal educado qualquer? E que comentário rejeitado provocou tanto ódio? Para a segunda pergunta não há resposta. Provavelmente o moço cometeu algum erro ao enviar seu petardo, mas para o resto há resposta...

A tecnologia responde. O excelente sistema de comentários do site grava o IP dos comentaristas e as virtudes do hacker do bem da Cardume Digital (minha empresa), o JP, fizeram o resto.

Pois vejam vocês que o nosso amigo MUITO REVOLTADO que cometeu o acinte de proferir tanta podridão e ainda usando o e-mail filhodedeus@gmail.com é o mesmíssimo do comentário a seguir, onde, desta feita se apresenta com seu verdadeiro nome e e-mail e, claro, como na versão “Crente 2.0”!




Veja como Mário Almeida fala de respeito cristão e amor enquanto admoesta outro comentarista do post. Ao final de sua explanação,  Almeida  trata de piedade e misericórdia... Que cretino!

O Sr. Mário de Almeida usa a internet da VIVO, mora em São Paulo e gosta de comentar, inclusive em sites que crente não deveria visitar. Seus rastros estão por ai. Não se aperreie Mário, vou cessar por aqui! Seu anonimato permanece para o mundo: somos só eu, você (e o seu IP) e Deus.

Mário é crente. Piedosíssimo e com verniz teológico, como atesta o seu texto assinado. Contudo, já em outro momento, quando contrariado, concede à tentação da capa do anonimato, se reveste de outra teologia e detona quem lhe incomoda. A teologia do ungido, do triunfalismo doente lhe serve bem. O “revestido” do “puder” do alto promete levar ao pó todo aquele que se colocar em seu caminho.

O que se passa com tantos “crentes“ que parecem sofrer de uma personalidade esquizofrênica? Tais me lembram a famosa novela O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde de Robert Louis Stevenson de 1886. Com muitas adaptacões para o cinema, teatro e TV, a obra trata de um caso de múltipla personalidade: Dr. Henry Jekyll e o misantropo Edward Hyde. Uma mesma pessoa dividindo uma personalidade boa e outra má. O impacto do romance foi tal que se tornou parte do jargão inglês, com a expressão "Jekyll e Hyde" usada para indicar uma pessoa que age de forma moralmente diferente dependendo da situação em que se encontre.

Lamentavelmente -e diferentemente do personagem da ficção-, a fim de liberar o seu lado monstro, o “crente” hodierno, o Mário, neste caso, não precisa tomar nenhuma bebida mágica. Basta se ver longe de outros crentes, porta da igreja para trás, ou no conforto do anonimato da internet. Nestes momentos, todo o recalque e o ressentimento acumulados se manifestam em explosão incontrolável. São as feridas acumuladas de uma luta vã contra a carne em seus sacrifícios de santidade forçada (e equivocada) dos que querem se fazer merecedores da própria salvação. São as chagas putrefatas da autocomiseração dos que se frustram por não alcançar o padrão de perfeição que a si mesmo se impõe, ou lhe são impostos. É o fruto de todo mal que é a remela nos olhos escondendo a Graça.

O mundo diz que a ocasião faz o ladrão. Eu prefiro pensar que o caráter (ou melhor, a falta deste) é que faz o ladrão. Contudo, não me iludo: dependemos da misericórdia de Deus mesmo para nos sustentarmos miseravelmente sobre uma dignidade trôpega. Qualquer verniz de santidade é totalmente dependente de nossa concordância com o Pai, em especial com a direção que Ele nos deu:  Deus escolheu ser amado no próximo.




O texto não esta ai para o Mário ou contra o Mário, mas para a admoestação de nós todos que estamos em Cristo. Para edificar e nos fazer refletir sobre nós mesmos. Somos, em algum nível, todos Jekyll e Mr. Hyde e confrontar isto na alma não nos distancia de Deus, ao contrário, nos leva a santidade verdadeira e à dimensão do Ágape,ao entendimento da Graça. 







 

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