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Desafios do Evangelicalismo Progressista

Dom Robinson Cavalcanti


A reflexão cristã possui uma dimensão “católica”: se assenta sobre a História, e se rompermos com o que foi sempre crido, criaríamos outra religião. Para os protestantes, a Reforma, seus postulados e Confissões, e os movimentos dela decorrentes, marcam a sua identidade. 

Como evangélicos, Escrituras, Conversão, Santificação, Missão, são aspectos essenciais. Essa catolicidade, além do tempo, diz respeito ao espaço: a Igreja em todo o mundo, com algo a nos dizer. O etnocentrismo (ler a realidade pelo nosso tempo e lugar), limita, distorce, mutila, enquanto quer importar sempre o pensamento de outro país, representa uma colonização. Há pensadores morenos (conservadores e liberais) com chips louros (made in USA ou in EU) inseridos em seus cérebros. O modo anglicano de teologar nos ensina uma aproximação das Escrituras com o auxílio da Razão (senso comum + contribuições da Filosofia e da Ciência = sistematizações da Revelação Natural), Tradição (consenso dos fiéis) e Experiência (pessoal e da comunidade de fé).

Como evangélicos não podemos, como os fundamentalistas, ter uma aproximação “islâmica” do texto bíblico; nem, como os liberais, uma aproximação legista (em necropsia), pois a iluminação pelo Espírito Santo nos faz ver e discernir, iluminados, pelos olhos da Fé, pois, essas coisas parecem loucura aos homens naturais, e apenas se discernem espiritualmente. O compromisso do pensador cristão é com Deus, a Palavra, sua consciência e a relevância do seu trabalho. Deve escutar o mundo, além do Espírito, sabendo que o mundo jaz no maligno, e é formado por criaturas pecadoras em suas mentes.

O pensador cristão deve ser humilde, na escuta dos seus críticos, mas não pode pautar o seu pensamento por eles, ou “jogar para a plateia”, preocupado em agradar ou desagradar, devendo ser movido pela obediência, não pela popularidade volúvel. O martírio é um risco permanente. Como intelectuais orgânicos da Igreja, devemos estar livres da tentação teocrática e da tentação do reboque às ondas seculares, reconhecendo um mandato cultural, o pecado cultural, a batalha espiritual cultural, e que há uma tarefa de evangelização da cultura, de apologética diante do pensar secular, com os valores do Reino de Deus, pelos meios legítimos de uma sociedade democrática e um Estado de Direito, com apelo ao direito natural, aos valores universais e ao bem-comum.

Quando, diante do infanticídio indígena, ou por subnutrição, do aborto e da eutanásia, o pensador cristão afirma o valor da vida, isso não é teocracia, mas ser sal e luz na História, e exercitar uma cidadania responsável. Os valores do monoteísmo de revelação não podem ser confinados à irrelevância das subjetividades, dos lares e dos templos, em passividade diante das agendas elaboradas por mentes atingidas pela depravação total.

Segundo um Reformador, é dever do cidadão cristão aproximar a lei dos homens da Lei de Deus, e, creio, aproximar o Estado da Nação. A redenção da história se dá na presença desse “escândalo”da cruz e da possibilidade de cura e restauração de pessoas e instituições arrependidas, à imagem da pessoa de Cristo, como sinal da Ordem da Criação renovada, e como antecipação da Ordem da Restauração, do novo céu e nova terra, construída em processo, que culminará com a sobrenaturalidade do Juízo Final, ressurreição, aprovação e reprovação, salvação e perdição.

O protestantismo, que tem sofrido ciclos de iconoclastia, e a confusão entre livre exame e livre interpretação, tem sido dilacerado pelas controvérsias do século passado, entre“evangelho social” e “evangelho individual”, fundamentalismo e liberalismo, com rebatimento posterior entre “renovação” e “libertação”. Os evangélicos progressistas têm estado sob o fogo cruzado dessa polarização. Por mais progressista que sejam em sua visão de um mundo mais justo, nunca irão contentar os liberais, porque há profundas diferenças teológicas; e por mais ortodoxos que sejam, nunca irão contentar os mais conservadores, ou fundamentalistas, em sua alienação, ou em seu adesismo ao sistema.

Dom Helder Câmara dizia que quando pedia ajuda para os pobres era considerado um santo, e quanto questionava as causas da pobreza era acusado de comunista. Quando um evangélico progressista sai no “grito dos excluídos”, ele é aplaudido pelos liberais e apedrejado pelos conservadores; quando ele afirma a pecaminosidade do homossexualismo, o aplauso vem dos conservadores e as pedras dos liberais, embora apenas deseje ser coerente com a mesma fonte: a Palavra.

Um evangélico progressista vive a tensão permanente do frustrar os extremos, e muitos sucumbem, por não aguentarem a tensão, saindo da arena da história ou aderindo a um dos pólos. Cada um seja o que quiser ser. O embate entre propostas divergentes é inevitável. Eu, porém, procuro estar entre os que continuam a querer ser! Sem o pessimismo histórico dos prémilenistas, ou o otimismo ideológico dos pósmilenistas, o realismo engajado amilenista dos evangélicos progressistas, caminha com a Doutrina Social e a Teologia Moral, na promoção do Reino de Deus.




Hoje é o dia do evangélico. Eu provoquei nossos leitores a aproveitar esta data para uma reflexão sobre o que o "ser"  evangélico. Um leitor nos sugeriu este texto de D. Robinson de 2011. Cá está!





 
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