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Política ou politicagem – o que queremos nós?





Thiago Lima Barros





A atividade política é uma das mais impressionantes que o engenho humano logrou conceber, demonstrando o quanto a Graça Comum do Criador se fez patentear na índole da nossa espécie, irradiando seus raios benfazejos sobre os bons e os maus. Todas as conquistas jurídicas, sociais e econômicas das quais o homem usufrui hoje, e que lhe facilitam a vida, são fruto de decisões tomadas por seus representantes, eleitos ou não eleitos, nas casas legislativas, gabinetes e órgãos jurisdicionais, além de agremiações políticas, entidades de classe e de organizações da sociedade civil, através de processos adequados e dotados de encadeamento lógico, e que atingiram a finalidade de satisfazer o bem comum das coletividades humanas.

Por óbvio, A Santíssima Trindade é a sua inventora, pois, ao instituir o universo e as normas que o regem, exerceu os Seu Poder Constituinte Originário, pleno e ilimitado, para legislar, administrar e exercer sua jurisdição sobre todas as coisas e criaturas, condensando todos esses comandos, de forma ao mesmo tempo analítica e sintética, mas facilmente assimilável, em um documento escrito denominado Bíblia Sagrada. Fica demonstrado, portanto, que é bastante precisa a ideia que compara a Palavra de Deus à carta constitucional de um Estado soberano.

Todavia, a natureza decaída do ser humano tratou de desvirtuar todos esses conceitos. E o que nós vemos hoje em nosso país: os órgãos de representação política dos três poderes da República, nas esferas de governo federal, estadual e municipal, tornaram-se feudos do poder econômico, o qual, nas suas mais variadas expressões, compra mandatos e consciências de muitos desses representantes a peso de ouro, sempre de forma ilícita, ora assaltando o Tesouro Público, ora fazendo normas visivelmente imorais, usando o Estado brasileiro como instrumento de alavancagem de seus negócios, à custa da perpetuação da miséria para milhões de pessoas. E a Igreja, que deveria se contrapor a esse status quo, quando não fecha os olhos para ele, participa do mesmo banquete imundo. E o que é pior: quando pegos em flagrante, dizem, da forma mais descarada possível, que procederam dessa forma ímpia em favor da causa do Evangelho!

O texto que ora começa se destina justamente a mostrar, à luz das Escrituras, os vícios do Protestantismo brasileiro contemporâneo no que concerne a conceitos e práticas políticos, evidenciando o distanciamento que se verifica, na sociedade brasileira como um todo, entre estes e as normas jurídicas, morais e éticas, a triste semelhança desse quadro com o que acomete a igreja (que deveria ser sal e luz, contrapondo-se a tal iniquidade) e as soluções para que o Povo de Deus se redima dessas falhas, cumprindo com exatidão o papel profético e o testemunho fiel que dele se espera. Alguns podem considerar uma mudança de rumo algo impossível de acontecer, mas eu acredito em uma igreja guiada pelo Espírito Santo, que vence os desafios que se lhe impõem pelo Poder dAquele que está nela.

Ah, e mais um alerta, esse direcionado aos trolls ultraconservadores, que costumam rondar artigos como este qual moscas varejeiras em busca do que patrulhar, a fim de acharem algum laivo de... hum... comunismo: vão escrever suas asneiras nos espaços de seus pariceiros, pois aqui até o humor é coisa séria! Vão brincar de CCC nos seus próprios esgotos, pois as sujeiras que deixarem nos comentários serão apagadas! Até mesmo a democracia tem limites e regras. Se não aprenderam isso até agora por bem, vão aprender por mal!

A crise de representação, o voto de cabresto e a troca de favores


Um dos fenômenos mais estudados pelos cientistas políticos contemporâneos é o do descompasso entre as expectativas dos eleitores e as práticas posteriores dos eleitos, principalmente dos membros do Poder Legislativo. Na verdade, essa é uma discussão que remonta a fins do século XVIII, mais precisamente ao processo revolucionário francês, desde o qual os conceitos de duplicidade (o parlamentar representando mais a sua consciência do que a vontade dos cidadãos) e de identidade (o mandato legislativo inteiramente subordinado à vontade do eleitor) disputam a preferência dos constituintes originários, tendo o brasileiro preferido a primeira modalidade citada, quando elaborou a Carta Magna de 1988.

Todavia, à medida que os custos das campanhas eleitorais se encarecem, esse fosso entre eleitor e eleito se amplia, pois, na ânsia de obter recursos com que se possam pagar as vultosas despesas de campanha, o candidato firma compromissos espúrios em troca das doações de grandes grupos econômicos, que buscam influência nas decisões de Estado para incrementar seus negócios. Uma vez de posse do mandato outorgado pelas urnas, o eleito tenciona satisfazer a vontade do financiador, não apenas legislando em favor deste, mas assaltando as burras estatais e exigindo a sua parte nesse butim (os famosos 10% ou mais), lesando, direta ou indiretamente, os interesses dos que o escolheram.

Frise-se, por oportuno, que esse processo de corrupção, longe de ser exclusividade de uma facção política, com alguns desejam fazer crer, é consequência de um fenômeno muito maior e mais antigo de concentração de poder político e riqueza, que remonta às nossas origens ibéricas. Raymundo Faoro, no já clássico Os Donos do Poder, mostra que a confusão entre público e privado, que resulta no comportamento patrimonialista descrito no parágrafo acima, tem origem na formação do Estado português, pois o rei, à medida que arrebatava terras aos castelhanos e árabes, as tomava para si, de forma que não se sabia o que era sua possessão pessoal ou do reino. Daí a ideia de uma elite que se apossa dos bens públicos, confundindo o público com o privado.

Bancada evangélica está em todas as maracutaias...
Achou pouco? Tem mais. O histórico brasileiro em matéria eleitoral ainda apresenta outra característica marcante: a coerção, inclusive física, dos chefes locais sobre o eleitorado. Nossa trajetória é prenhe de “eleições do cacete”, currais eleitorais, pleitos fraudados a bico de pena, tudo para a manutenção do status quo. Do Império á República Velha, e com cada vez menos força até os nossos dias, a tradição tupiniquim é a de sequestro da vontade livre e soberana do eleitorado por uma liderança paroquial, que por sua vez, se subordina a escalões maiores de poder. As fraudes rareiam em nossos dias, mas alguns grotões do país, inclusive em centros urbanos, fazem questão de se submeter aos caprichos de chefetes locais, numa emulação descarada do velho coronelismo que dominou a política nacional até a Revolução de 30.

Essa volta histórica foi longa, mas necessária para constatar, com a mais absoluta tristeza, a total identidade da igreja evangélica brasileira do século XXI com práticas políticas do século XIX ou de bem antes. Afinal, o que se vê e se ouve nos templos Brasil afora em matéria de política, basicamente, é a indicação dos candidatos a serem sufragados nas urnas pela massa de fiéis. E nisso a liderança não poupa esforços (e despesas), fazendo um movimento interessante: promovem eventos que arrastam centenas de milhares de pessoas para darem uma demonstração do tamanho do capital político por eles controlado (eis aí uma das finalidades das “Marchas para Genésio”), a fim de “venderem” esse apoio na época do pleito, em troca da encampação de uma agenda que atenda aos seus interesses igrejeiros, como a defesa de valores de aparência cristã, recursos do orçamento público para fundações “assistenciais” ou mesmo para reforma de templos, troca de apoio em projetos de interesse mútuo etc.

da mafia das ambulâncias, sanguessugas e Mensalão.
Nesse último aspecto, chama a atenção uma parceria espúria firmada entre as bancadas evangélica e da indústria, há  meses atrás, na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados (http://extra.globo.com/noticias/brasil/parceria-industria-igreja-derruba-votacao-de-imposto-de-grandes-fortunas-4852991.html): a fim de conseguirem apoio para barrar um projeto de lei que concede direitos previdenciários a dependentes de homossexuais, os deputados evangélicos sufragaram uma manobra regimental para derrubar a taxação sobre grandes fortunas, cujos recursos seriam destinados exclusivamente ao custeio do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso sem contar o toma-lá-dá-cá que houve quando do famigerado escândalo do “kit gay”: para barrá-lo, o partido cóspel, por meio de seu presidente, o deputado goiano João Campos (PSDB), chantageou o governo com a convocação do sempre enrolado Antonio Palloci para explicar seus malfeitos (http://www.genizahvirtual.com/2011/05/kit-gay-vergonhosa-vitoria-da-bancada.html).

Trocando em miúdos: a membresia só serve como massa de manobra na hora de eleger representantes desse jaez. Na hora de legislar em favor dos próprios irmãos na fé, pois muitos crentes de camadas menos favorecidas dependem da saúde pública para terem algum acompanhamento médico, os clérigos-parlamentares abandonam suas ovelhas à própria sorte e se abraçam aos ricos do presente século. E o que é pior: num país com uma concentração de renda ainda vergonhosa, invocam a pseudo-defesa de valores cristãos para se escusarem das suas próprias responsabilidades para com os mais fracos! É vergonhoso, para dizer o mínimo.


Obrigado Gizuz pela propina nossa de cada dia.

A ausência de um testemunho fiel

E não para por aí a tosca emulação da política mundana perpetrada por nossos “representantes” góspis: é conhecido o envolvimento de muitos deles em demandas judiciais rumorosas, que apontam para o cometimento de ilícitos penais e civis cabeludos. Matéria publicada neste Genizah no último dia 6 de abril (http://www.genizahvirtual.com/2012/04/maioria-dos-deputados-evangelicos.html) mostra o rol de deputados federais de confissão cristã-protestante que estão no banco dos réus em processos nas Justiças Estaduais, Federal, Eleitoral e nos Tribunais de Contas. Fora senadores, deputados estaduais, governadores, vereadores e prefeitos alegadamente servos ungidos de Jesus (ou seriam untados de Genésio?) que também são pilhados com traves imensas varando seus olhos, enquanto catam ciscos nos globos oculares de terceiros.

Esse rosário de desvios éticos toca num ponto nevrálgico do testemunho dos de fora: até bem pouco tempo atrás, “evangélico” era sinônimo de pessoa honesta, de boa-fé, cuja palavra empenhada valia ouro. Hoje, não são poucos os casos em que os ímpios se embasbacam com a cara de pau de muitos “cristãos”, e não apenas na política. Vários fatores influenciaram essa mudança, que é mudança tanto de percepção quanto de comportamento mesmo, mas a maior delas é a influência da cosmovisão pseudo-pentecostal, que bebe nas fontes pútridas da teologia da prosperidade e da confissão positiva.

Explico: os anos 80 foram uma época de congraçamento entre as várias correntes do protestantismo brasileiro, e justamente o momento em que os neopentecostais começam a ascender no cenário evangélico. E uma das ideias mestras do neopentecostalismo é a de que Deus é obrigado a nos atender. Ora, se Ele não me atende na hora em que eu quero, que mal há em eu adiantar um pouquinho as coisas, por meio do meu esforço, nem que para isso eu passe por cima de tudo, até da Palavra de Deus?

As demais igrejas, mesmo sabendo da periculosidade das doutrinas novas, são pegas de calças curtas, não oferecendo uma resistência suficientemente forte ao despautério teológico que nascia. E não apenas isso, mas também há um intercâmbio bastante forte entre as correntes bíblica e anti-bíblica, por meio de instituições como a ADHONEP, por exemplo. O intercâmbio herético era inevitável. Tanto que no rol acima mencionado há presbiterianos e metodistas, o que demonstra que nem os históricos, tidos principalmente por si mesmos como 100% bereanos, escaparam da influencia dessa lógica do vale tudo.

A imposição de um pensamento único


O ponto a seguir diz bastante respeito à inserção política dos evangélicos brasileiros no mundo virtual, que nada mais é do que um retrato do pensamento da liderança e da membresia das igrejas. Não há estatísticas a respeito, mas a percepção que se tem é a de que a esmagadora maioria dos blogueiros protestantes se declara conservador ou de direita. Até aí, nada demais, apenas o exercício das liberdades de manifestação de pensamento e de consciência e crença, garantidas pela Constituição Federal (art. 5, IV e VI). O problema começa com a confusão que se faz entre as ideias políticas do conservadorismo e as da Palavra de Deus, como se elas formassem um todo uno e indiviso. Em outras palavras, a Trindade chancelaria apenas as ideias liberais-conservadoras e de direita (primado do indivíduo sobre a coletividade, tradicionalismo, inocuização do Estado, promoção da desigualdade etc.), pelo que ser de esquerda seria um pecado mortal, passível de excomunhão. Qualquer semelhança com o pensamento mofado do Simão do século XX (At. 8:18), Carl McIntire, não é mera coincidência.

Nesse ponto, há que se distinguir entre duas posturas encontradas entre os mais conservadores: os de linha de ação mais light, que apesar de criticarem apenas esquerdistas e acharem somente a direita perfeita, tão somente expõem seus pontos de vista, sem a pretensão de enquadrar ninguém, e os trolls, que patrulham, perseguem, difamam e caluniam a pretexto de exercerem um ministério “profético”, quando, na verdade, são os últimos soldados da Guerra Fria, por sua bolorenta retórica anticomunista dos anos 60. Lights e trolls viviam em aparente harmonia, os primeiros pensando que os segundos jamais se voltariam contra eles. Recentemente, porém, os leitores do Genizah, que são inteligentes e antenados com o que acontece no lado cristão da web, acompanharam o entrevero no qual um dos trolls resolveu se voltar contra um dos lights, por considerar heréticas algumas de suas posições em relação a uma tragédia que infelicitou o meio evangélico. Vários lights hipotecaram solidariedade ao companheiro agravado, o que provocou a ira do troll-mor, que disparou sua metralhadora giratória contra todos eles. Os lights, acostumados a descer seus azorragues apenas em perigosos esquerdistas, não tiveram a mesma coragem com o troll hidrófobo, e se calaram, posição na qual permanecem até o dia de hoje.

Falo de tais assuntos com propriedade porque sofri isso na pele: minha primeira contribuição para o Genizah foi severamente bombardeada por trolls ultraconservadores, que me dirigiram, aqui e em outros canais, todo tipo de ofensa e prejulgamento, considerando-me defensor do totalitarismo leninitsta soviético e de todo tipo de libertinagem, sem sequer se preocuparem em saber o que eu realmente penso a respeito de diversos temas correlatos, o que repeli veementemente, mostrando os pés de barro de um dos maiorais de sua facção (ainda que restem algumas réplicas a opor aos meus detratores, as quais serão publicadas em tempo oportuno).

O engraçado é que o meu maior referencial político jamais foi o comunismo marxista-leninista-stalinista-maoísta, o qual abomino, mas sim a Doutrina Social da Igreja Católica, que influenciou fortemente o constitucionalismo social, voltado para a proteção dos menos favorecidos, que exerce influência sobre as constituições brasileiras desde 1934. E se assim o faço, é depois de constatar que, tristemente, nós, protestantes, não tivemos a coragem de gestar algo parecido, embora tivéssemos a mesma capacidade intelectual. Logo, por default, estou mais próximo de Leão XIII, Von Ketteller e da Rerum Novarum do que de Marx, Engels ou do Manifesto Comunista.

Ademais, no opúsculo Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política, o jurista e filósofo italiano Norberto Bobbio mostra direita e esquerda como conceitos relativos, não como absolutos ou ontológicos. São, na verdade, lugares do espaço político: em suas palavras, “não se é de direita e de esquerda como se diz comunista ou liberal”. A esquerda exaltaria mais o que faz os homens iguais; a direita, pelo contrário, vê a desigualdade como uma lei ineliminável da natureza, saudável para o desenvolvimento social. Por trás de todo o argumento sobre esta afirmação, o filósofo mostra que a questão é bem complexa, pois em última instância, ambas preocupam-se com o bem da sociedade. Assim, Bobbio desmitifica a esquerda, mostrando que ela não é sinônimo apenas de marxismo, e demonstrando a existência de uma esquerda capitalista.

É claro que essa desconfiança não é de todo improcedente, pois boa parte das esquerdas remonta sua origem ao pensamento de um inimigo declarado do Cristianismo: Karl Marx. Tambem é evidente que mesmo a esquerda mais moderada é composta por pessoas que defendem pontos de vista contrários aos da Palavra de Deus. Contudo, não é menos verdadeiro que a direita também pariu o infame imperialismo dos séculos XIX e XX, cujas consequências nefastas o mundo ainda sofre, notadamente na África e na Ásia, bem como o nazi-fascismo de Mussolini e Hitler, o qual, da mesma forma que o finado comunismo soviético, foi uma avant-premiére do reinado de terror do Anticristo. Também é verdade que o conservadorismo defende a conservação não apenas daquilo que é bom, mas igualmente do que não presta, como a perpetuação da desigualdade, a relativização da democracia e das liberdades individuais, quando lhe interessa (vide o que “nascido de novo” Bush Jr. fez nos EUA em nome da “Guerra ao Terror”), a usura desenfreada que hoje coloca metade do mundo na bancarrota... A lista é extensa, mas basta dizer que a pretensa santidade da direita é papo furado. A propósito, senhores trolls, a agenda pró-aborto e pró-gays não é “privilégio” da esquerda, mas da pós-modernidade ateia/agnóstica. Tanto que um de vossos ícones, o eterno candidato-a-alguma-coisa José Serra, é a favor do casamento gay, bem como definiu, quando ministro, a atual política de realização de abortos nas hipóteses legais (previstas no art. 128 do Código Penal). Durma-se com um barulho desses, não é mesmo?

A consequência mais nefasta dessa postura pragmática é o julgamento segundo a aparência, condenado pelo Senhor em João 7:24. O indivíduo pode ser uma pessoa temente a Deus, obediente, hospitaleiro, ajudador, mas não pode manifestar quaisquer simpatia por ideias social-democratas, trabalhistas ou moderadamente esquerdistas, que logo será tachado de comunista perigoso, defensor do casamento gay e do aborto, merecedor do isolamento da comunhão etc. É o farisaísmo vicejando dentro do Corpo de Cristo. O selo do Sangue do Cordeiro é ignorado.

Mas há uma explicação para o comportamento descrito acima: a lógica da porteira fechada. Venho falando a respeito dela desde que comecei a escrever aqui. Consiste esse pensamento em comprar pacotes ideológico prontos, perfeitos e acabados, sem analisar a fundo a adequação de cada uma de suas ideias ao que diz a Palavra. É o que os trolls direitistas fazem: a esquerda é do cão porque apoia os gays e o aborto, afirmam. Mas, retirados esses dois pontos, o que pode ser dito das ideias de esquerda? Redistribuir renda fere as Escrituras, por algum acaso? Quando me apresentei aos leitores do Genizah, há pouco mais de um ano, resumi assim o meu credo político:

Na política, estou no campo da esquerda democrática, ou social-democracia (quase um brizolista), muito embora não posso me filiar, por causa do trabalho, a nenhum partido político. Mas isso não significa que eu compre pacotes ideológicos prontos. Submeto-os, antes, ao crivo da Palavra de Deus, o que me faz rejeitar ideias falsamente progressistas, como a liberação do aborto e do consumo de drogas e o casamento gay. e abraçar as demais, como a defesa da igualdade de oportunidades, a distribuição de renda, a proteção dos mais necessitados, o fortalecimento da educação e da assistência à saúde, entre outras. Em resumo, observo de tudo e retenho o bem (1 Ts 5:21), julgando segundo a reta justiça (Jo 7:24)

Reafirmando o meu testemunho daquela ocasião, e crendo na convivência democrática entre os divergentes (coisa que aqui não é teoria, é prática), reconhecendo que à direita há irmãos honestos, gente de bem, amantes da inerrante e infalível Bíblia Sagrada, penso, como eles, mesmo pensando diferente, em tudo que é verdadeiro, amável, justo, puro, de boa fama e em que há virtude e louvor (Fp. 4:8).

Quem quiser, fique a vontade para se retalhar de raiva. Sou do Senhor. Trago no meu corpo as marcas de Jesus (Gl. 6:17). E é assim que penso.

A ridícula pretensão dominionista (ou: o Irã Evangélico. Ou ainda: quem transforma o homem? Deus ou o próprio homem?)

Por fim, um traço indissociável do pensamento político da gospelândia de Pindorama é a sua própria versão (na verdade, um rascunho cheio de garranchos) da Teologia do Domínio. Em verdade, é interpretação corrente, no estudo da escatologia, o papel de governo que a Igreja exercerá com Cristo no tempo do fim, havendo apenas discordância quanto ao momento em que isso irá acontecer. Contudo, para os adeptos dessa teologia de fundo de quintal, a igreja tem que ambicionar a ocupação de espaço político aqui e agora, promovendo os valores do Reino. Tudo ficaria bem se o modus operandi dessa promoção não fosse o pior possível: a imposição goela abaixo desses valores aos recalcitrantes (e que bom se fosse em virtude de lei!). Nada de oração, nada de Poder do Alto, nada de transformação de mentes: apenas ofensas, xingamentos, bravatas, o famoso “tu vai ver só”... Belo cristianismo esse! Belíssimo testemunho!

Assim, os políticos ditos evangélicos, ao invés de propagar o Evangelho por meio do testemunho de seus membros, legislando em prol da construção de uma sociedade livre, justa e solidária, da erradicação da pobreza e da marginalização e redução das desigualdades sociais e regionais e da promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil – Constituição Federal, art. 3º, I, III e IV), sendo sal da terra e luz do mundo (Mt. 5:13-16), prefere fazer da nação um mundinho só seu, escoimado do “pecado” e da “iniquidade” – será que também teríamos fogueiras? Nem parece que o Nosso Deus é o Senhor da História! É novamente visível a tendência antropocêntrica de querer dar uma mãozinha ao Criador de todas as coisas.

A prevalecer essa intenção velada de se estabelecer um Estado confessional, estaremos assistindo a um retrocesso histórico e a um risco profético. O retrocesso se deve à ruptura do, Estado Laico, que é a melhor ferramenta secular para a preservação da saúde espiritual da Igreja.

Como dispensacionalista que sou, herança comum a batistas e pentecostais (províncias teológicas às quais sou filiado, como membro da renovada e independente Igreja Batista El Elyon), sempre fui entusiasta do princípio batista da separação radical entre Igreja e Estado, conquistada em terras tupiniquins em 1890, pois entendo que a função da igreja é a de ser uma consciência moral e ética do mundo, imiscuindo-se como sal e irradiando-se como luz, influenciando as decisões centrais dos governantes e fazendo-as se projetar para o centro da vontade de Deus, o que leva inexoravelmente à felicidade dos homens. Sem adesões, sem atrelamento. A Igreja influencia positivamente o Estado, pela atuação individual de cada um de seus membros que atua na estrutura governamental, mas sem a pretensão de tomar-lhe as rédeas.

Por consectário lógico, uma congregação livre da influência da burocracia estatal prega o evangelho com muito mais desembaraço e ousadia, sem rabo preso com os poderosos do presente século E aí reside o risco indicado acima: o Evangelho é uma mensagem simples e poderosa, que resgata o homem da morte total para a vida em plenitude, na qual o pecado, mesmo presente, já não tem mais domínio sobre ele. Ora, essa transformação se dá pela exposição, firme e sem concessões, da Palavra de Deus, mas não prescinde do amor dEle, que se revela ao pecador mais reles – inclusive a nós, que continuamos pecadores, mas fomos remidos pelo sangue inocente de Jesus. Que moral terá para pregar a boa nova do Cristo Ressurreto a esses pecadores uma instituição seca, rancorosa, sem amor, apegada às pompas do poder e sedenta do sangue dos dissidentes? Onde fica a Graça de Deus nesse enredo? A história nos mostra que Estado confessional é estado perseguidor e assassino. Vide a Genebra de Calvino e a Inglaterra dos Tudors, apenas para ficarmos em alguns casos protestantes.

E não apenas isso, mas a maneira atabalhoada com que a liderança góspi busca se impor nesses debates públicos é vexatória. Em 2010, assistimos à patética tentativa de intervenção de um então ex-presidente da Convenção Batista Brasileira, Paschoal Piragine Júnior, no processo eleitoral nacional, para recomendar às ovelhas de sua congregação local que não sufragassem um partido supostamente propagador da iniquidade. No calor daquela mesma hora, o Pavablog publica uma análise irretorquível da postura casuística e farisaica do personagem abordado (http://www.pavablog.com/2010/09/25/calma-deus-nao-vai-julgar-o-brasil/), personagem este que acaba por revelar suas reais intenções, ao conseguir sua recondução à presidência da CBB no início do ano seguinte. E revela, também, seu conceito fluido de iniquidade, ao emudecer, até a presente data, quanto à pretensão de alguns de seus conservos em comemorar o aniversário da Convenção com um dos mais pervertidos símbolos pagãos – um obelisco (http://www.genizahvirtual.com/2011/03/querem-jogar-memoria-dos-batistas.html)!

Como dito antes, a Igreja é como o grilo falante da história de Pinóquio: a consciência crítica da nação, bafejando-lhe aos ouvidos o ethos da Eternidade, por meio das boas obras cantadas tão habilmente por Tiago, o irmão do Senhor, em sua epístola. Jamais pode pretender se antecipar aos fatos que o próprio Pai, por Sua exclusiva autoridade, traçou na Glória Celeste, e querer governar um país ou o mundo inteiro, apenas com o uso de sua força, forçando as pessoas a aceitar nossas crenças – não seria isso zombar da soberania de Deus? E o “não por força, nem por violência, mas pelo Meu Espírito (Zc. 4:6)”, onde fica nessa história? Até onde eu sei, o Deus Triúno quer ser adorado em Espírito e em Verdade, e isso inclui conversão autêntica, de coração, jamais forçada.

A Igreja de Cristo não deve buscar criar situações artificiais, quando a nós está destinado governar com o Rei dos Reis no Seu Milênio. Aliás, se somos tão críticos em relação aos muçulmanos e suas conversões forçadas, às tantas vidas que ceifaram a fio de espada (e a bomba) em nome de Alá, por que buscamos fazer o mesmo, ouvindo líderes interesseiros e mentirosos que buscam “limpar o terreno” dos diferentes e inconvenientes, apenas para exercerem de forma abusiva o primado (3 Jo. 9), e serem ditadores tão ou mais odiosos sobre nossa pobre república quanto o são nas igrejas-empresa de sua propriedade? Gostariam esses falsos profetas

Ao contrário, o modelo a ser seguido, constante na Palavra de Deus, é o de uma comunidade que “conta com a simpatia de todo o povo” (At. 2:47), intransigente na defesa da sã doutrina e na mensagem do Crucificado, mas que ama a todos indistintamente. Que não quer que nenhuma alma se perca, mas que todos, inclusive aqueles que foram eleitos pelos neo-fariseus neoconservadores contemporâneos, do alto de sua soberba demoníaca, como irrecuperáveis, venham ao arrependimento e ao conhecimento de Cristo (2 Pe. 3:9,18). Que emula o comportamento de seu Mestre, o qual não receava ser visto com publicanos, meretrizes, os rejeitados de sua época, mas resgatou e regenerou muitos deles, e os fez seu povo e ovelhas do seu pastoreio (Sl. 100:3). Como testemunha uma das muitas lápides nas catacumbas romanas, uma instituição cujos integrantes são “amigos de todos e inimigos de ninguém”. É contra essa Igreja, que efetivamente faz a diferença em um mundo perdido, que as portas do inferno não prevalecem.

Portanto, é abominável, à luz da Bíblia, a pretensão da politicalha gospel de querer criar um Irã evangélico em terras brasileiras, uma espécie de califado pseudo-cristão que pretenda impor uma coisa que só Deus pode operar – a transformação de mentes – e cuja única contribuição que nós podemos dar é na pregação fiel do Evangelho, permitindo que o Deus de Toda a Terra faça o restante. Coisa na qual quase todos os pretensos “aiatolás protestantes” brasileiros deixam muito, mas muito mesmo, a desejar.

Como fazer a diferença?


A história do povo de Deus (Israel e Igreja) é uma historia de recomeços. Muitas vezes, é preciso enfrentar um processo doloroso de demolição de estruturas corrompidas, geradas na nossa mente depravada, mas com o consolo de que o alicerce (Bíblia), desenhado pela própria Pedra Angular (Jesus), já estará lá. E temos agora uma oportunidade de ouro para fazermos isso, pois estamos diante dos pleitos que definirão os próximos prefeitos e vereadores municipais para o quadriênio que se inicia em 1º de janeiro de 2013. É hora, portanto, de revermos conceitos em nossa prática política cotidiana, a fim de estarmos cada vez mais com a nossa mente moldada à de Cristo. Para isso, algumas mudanças de postura são necessárias, e aqui eu sugiro um punhado delas, deixando os leitores à vontade para acrescentarem mais ideias boas e bíblicas ao rol que se segue. Vamos a elas:

1) Saber pregar a Palavra de Deus com a Verdade, sem ofensas pessoais ou grupais, a fim de que o mundo se lembre de que a nossa repulsa não é a pessoas, e sim a comportamentos reprovados por essa mesma Palavra;

2) Exercer de forma consciente a cidadania, negando voto não apenas a quem quer “destruir a vida e a família”, mas tambem a políticos pretensamente evangélicos que caçoam da Palavra de Deus, o que já é um demonstrativo de falta de caráter cristão, e da justiça humana, em desacordo com o que Paulo recomenda em Romanos 13:1-7;

3) Lutar pela Liberdade de Expressão, que, no plano político e jurídico, é a maior expressão da liberdade, segundo Tocqueville. Ao fazermos isso, não apenas estaremos defendendo contra os PLCs 122 que surgirem o nosso direito de expressarmos, em qualquer lugar e por qualquer meio, sem desembaraço algum, a nossa cosmovisão, baseada no resgate, por Deus, da dignidade do homem decaído, mas toda a sociedade;

4) Defender as instituições públicas (Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, Ministério Público, Polícia, Forças Armadas etc.) e o seu aperfeiçoamento, vigiando contra qualquer tentativa de supressão do Estado Democrático de Direito por gente de mente cauterizada, venha ela de onde vier, manifeste-se da forma que se manifestar. Do golpe militar ao suborno do guarda, passando pela tortura, pela violação ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa, devemos lançar de nossa mão a iniquidade (Jó 11:14), não compactuando com práticas que de cristãs não têm nada;

5) Exigir, das lideranças das congregações, disciplina eclesiástica para os maus políticos “evalgélidos”, principalmente para os que exercem o ministério da Palavra. Tal medida, embora possa ser considerada delirante, principalmente pela quadra em que vivemos, com igrejas que têm dono e pastores pragmáticos, que preferem fazer da Bíblia confete a molestar o irmão-deputado, teria o efeito pedagógico de mostrar às gerações presentes e futuras de que nós não somos coniventes com pecado nenhum, e de que não há pecado apenas em ser gay ou aborteiro, mas tambem o há em ser ladrão do dinheiro do povo ou do seu futuro, o que é bem pior;

6) Na mesma toada, exigir dos patrulheiros góspeis da opinião alheia, na internet ou fora dela, um pouco mais de compostura. Eles devem ser lembrados de que o Senhor não é propriedade de um partido ou de uma facção. Da mesma forma, eles não tem o poder, que só Deus tem, de lançar seus desafetos no inferno – muito embora desejem isso ardentemente (perdoem o trocadilho). Devem ser, ainda, admoestados a basear seus julgamentos na Palavra de Deus, e não em credos políticos particularíssimos, disfarçados numa teologia de fundo de quintal;

7) Ter sempre em mente o entendimento de que qualquer perseguição sofrida pela Igreja é bíblica e profética. Não fosse assim, jamais teríamos mártires, muito menos o seu testemunho inspirador. Ao contrário dos malandros que asseveram que estaríamos perdendo uma guerra cultural, bolando uma versão de araque da Kulturkampf de Otto von Bismarck, o testemunho das Escrituras é exatamente o oposto: o Senhor da Igreja já decretou sua vitória. Aleluia! Por isso, ao mesmo tempo em que nos afadigamos para levarmos a Boa Nova da Salvação, descansamos na certeza inarredável de que ela jamais deixará de ser pregada, pois servimos ao Senhor da História.

Encerro este texto, que foi um dos mais difíceis que produzi (quantas horas me prostrei diante de ti, Rei meu e Deus meu, para que me concedesses essa graça!) com o vídeo abaixo, no qual Ariovaldo Ramos, muito antes que o cartapácio acima viesse à tona, expôs de forma mais resumida (e mais talentosa, creio), o que aqui se registrou. Que o Pai das Luzes (Tg. 1:17) nos abençoe!










Thiago Lima Barros é colaborador no Genizah











 

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