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A mulher do pastor e os funerais




Rubinho Pirola


Ela nunca se dera bem em funerais.

Apesar de piedosa e de um coração solidário com a dor dos outros, chegara a prometer ao marido que só iria mesmo em outra cerimônia de enterro quando fosse a sua vez. E ainda assim, carregada!

O marido já havia aprendido a duras penas que, apesar da tentação e da obrigação de dizer algo a um enlutado parente, que nem sempre se lembra do que lhe disseram naquela hora de dor, deve-se aprender com Jesus, quando diante de situação semelhante, simplesmente chorou. Emprestou o seu melhor – exteriorizou sentindo a dor do que perdeu alguém, em lágrimas como todo ser humano diante da inevitabilidade e crueldade da morte.
Mas não. Ela sentia uma compulsão por dizer alguma coisa, constrangida, quem sabe pelo silêncio da hora.

Estava pensando nessas coisas, quando o avião que levantara voo há menos de dois minutos do aeroporto de Heathrow em Londres, começou a balançar mais do que de costume e como apendera, experiente que era, em suas viagens, como esposa de missionário, isso haveria de passar.

Conforme o aparelho ganhava altura, aumentava o sacolejo e, lá fora, o temporal que já lhe fizera prever uma viagem longe de ser tranquila.

Olhou do lado, a poltrona colada à sua, e notou que a senhora, companheira de sacolejo chorava copiosamente. Ela, com o seu coração sempre solidário, não aguentou. Mal o avião nivelou, ela pôs-se perto da senhora e disse à aflita passageira: “Não fique assim, isso é normal nessa época, não precisa se afligir” enquanto a mulher chorava ainda mais forte.

“A senhora está só?” Tentou desviar a conversa.

“Não, estou com a minha irmã”.

“Então, a senhora não quer chamá-la? Não me importo de trocar de lugar com ela, assim quem sabe a senhora se acalma e vê que isso passa num instante”.

“Não posso. Ela está no porão! Estou levando o seu corpo pra enterrar na nossa cidade!"

Mais uma vez, concordara consigo mesma que ela e a morte, definitivamente - mais até que qualquer pessoa – tinham uma incompatibilidade séria. Ainda quis fazer teologia, pensando que isso é mesmo algo genético, arrazoou. “Não fomos feitos pra ela”. Foi por culpa do acidente no Éden que ela entrou na nossa história e nos tornamos inimigas, até que Cristo, de uma vez por todas, dela nos livrará, lá na eternidade.

Mas essa história de não dar-se bem com essas situações envolvendo morte, luto e funerais, não parou.

Todo mundo conta de outra ocasião, quando, numa noite, foram, ela e o marido chamados à saída de um programa com direito a cinema e pipoca, para que fossem até a um velório, para orarem e apoiarem uma senhora que perdera o pai.

Depois de cerca de uma hora numa sala apertadíssima, 2X2 metros no Cemitério de Sacavém, próximo à Lisboa, em Portugal onde serviam como missionários, lá passaram ouvindo casos e mais casos do corpo que jazia entre o casal, outrora um cristão fiel e dedicado e uns quatro de seus familiares.

Na hora de partir, o pastor fez o seu melhor para consolar os enlutados, cumprimentando-os com aperto de mão, esgueirando-se entre as paredes muito próximas, e passando os braços sobre o corpo, estendido, num caixão que se abria totalmente, formando uma espécie de mesa, sem paredes laterais.

Assim fazendo, saiu deixando a esposa. Muito solidária e desajeitada com o pouco espaço, repete os gestos do marido, cumprimenta a todos: “Boa noite!”, “Boa noite!” e... debruçando-se sobre o defunto, com a mão a afagar-lhe os cabelos daquele que por instantes se tornara um conhecido próximo pelas narrativas de experiências e histórias, deixa um “Boa noi...”, para o espanto de todos e as gargalhadas contidas do marido que teve de correr pela porta a fora.

Essa história serviu, conforme testemunhado pelos poucos que ali estavam, dias depois na igreja, de como os brasileiros são carinhosos, pois até despedir-se do defunto como se faz a um acamado a esposa do pastor fez naquela noite de pranto.

Mas o pior estava ainda por vir.

Outra manhã fria de fevereiro (um dos piores meses do inverno europeu!), foi o casal chamado para oficializar a cerimônia de cremação de um senhor, pai e sogro de um casal muito querido, Eduardo e Mitú Porfírio, no Cemitério Alto de São João em Lisboa.

Imaginem a cena: Alto de São João, chama-se o lugar (aquilo era o topo de um morro!), fevereiro, com direito a muito frio e vento absolutamente impiedoso e cortante para um casal dos trópicos e um espaço com um teto com caramanchão de flores sem paredes laterais.

E dá-lhe frio!

Após a pregação, a oração pela família enlutada e a gratidão manifesta a Deus pela vida do falecido, o pastor mais grato ainda por ter chegado ao final sem que as orelhas lhe caíssem do lugar por conta do vento que soprava e sibilava impiedosamente gelado, perguntou ao genro do defunto:

“Podemos ir agora, não? Estamos esperando mais o quê?”

“Pastor, vamos agora esperar pelas cinzas e nos vamos”.

“Hum,... isso leva o quê? Uns 10, 15 minutos?”...

“De cinquenta minutos a uma hora, pastor!” Sentenciou o genro, o que nenhum daqueles por certo e com certeza o pastor queriam ouvir.

E dá-lhe frio...

Procurando se ajeitar pra suportar o que nenhum brasileiro que viera do calor do Triângulo Mineiro desejava, notou o pastor que a esposa começa a ficar impaciente.

“Vai dar caca!”, pensou...

Foram-se aguentando, trocando de apoio das pernas, esfregando as mãos vez por outra, quando a esposa, dobrando-se para a filha do morto que postara-se entre ela, o esposo pastor e o marido da enlutada senhora, comenta:

“Que frio, hem, Mitú?”.

“Pois é, querida. Muito mesmo.”

E emendou de pronto:

“Mas em compensação, o seu pai está bem mais quentinho que a gente, né?”

Não será necessário dizer que a plateia dividiu-se entre os que correram para a esquerda e os que foram pela esquerda, seguido pelo genro às gargalhadas.
Nem que a filha do morto, enxugou as lágrimas e fez o que pode para esboçar um sorriso simpático diante de tal comentário.

Desnecessário também será dizer que o pastor, aflito, ainda jura que procurou a Bíblia que usara alguns momentos antes, para socá-la entre os dentes da esposa para impedi-la de dizer mais o que fosse.

E que prometeu nunca mais levá-la a funeral algum. A não ser o dela.





Rubinho Pirola é sócio remido no Genizah e sócio-atleta da padoca do Joaquim.






 

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