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Morre Carlo Maria Martini: A grande voz do cristianismo aberto, sofrido e dialogante



A morte do cardeal provocou grande emoção na Igreja e no mundo secular, com o qual o incansável bispo biblista sempre buscou o debate.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 31-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Com a morte do cardeal Carlo Maria Martini, desaparece um grande protagonista da vida da Igreja dos últimos 30 anos. Arcebispo de Milão por 22 anos, Martini foi muitas vezes considerado quase o antagonista de João Paulo II, o papa que o havia escolhido para enviado com apenas 52 anos à frente da maior diocese da Europa, entre as mais importantes do mundo.

O cristianismo de Martini sempre foi considerado aberto, sofrido, dialogante. Basta lembrar o que significou a "Cátedra dos não crentes", através da qual o cardeal queria dialogar com quem não crê, com quem está em busca, com que é dilacerado pelas dúvidas. Mas não devemos esquecer que o cardeal emérito de Milão, falecido nessa sexta-feira depois de uma longa doença, foi o arcebispo da "Palavra de Deus", da meditação, da oração, da eucaristia. E, portanto, seria errado querer esmagá-lo apenas sob o clichê do "bispo liberal", pronto para servir de contraponto ao papa e à doutrina oficial.

É verdade que, muitas vezes, nos anos do pontificado de Wojtyla – que coincidiram quase inteiramente com as do seu episcopado –, Martini expressou aberturas ou se mostrou possibilista em certas matérias, quase querendo marcar uma diferença com a linha romana. Mas também é verdade que muitas vezes as suas frases ou declarações foram enfatizadas para contrapô-lo a João Paulo II, apresentando-o durante ao menos dez anos como o mais "papável", candidato de ponta da ala liberal.

Enquanto outras afirmações – basta pensar nas palavras proferidas em defesa da vida e contra o aborto, a favor da igualdade escolar ou para propor uma integração atenta e inteligente dos muçulmanos presentes na cidade que não tinha nada a ver com um certo "bonismo" – passaram quase despercebidas.

Mesmo com relação a Bento XVI, seu coetâneo, professor como ele, Martini não deixou de marcar algumas diferenças. E não só por ter apresentado, como o fez, objeções ao livro Jesus de Nazaré (certamente apreciadas por Ratzinger mais do que muitos elogios indistintos). O cardeal jesuíta, a respeito dos divorciados em segunda união, reconhecimento das uniões gays e bioética, de fato, manifestou posições que geraram discussão também nos últimos anos e pareceu possibilista, para além da própria doutrina moral católica.

No entanto, hoje, o que mais chama a atenção, mais do que a "Cátedra dos não crentes" ou da "Escola da Palavra", dos seus inúmeros livros – que ele confidenciava nunca ter escrito, tendo sido quase sempre degravações dos seus discursos – foi talvez o modo pelo qual ele enfrentou a sua doença, o mal de Parkinson, o mesmo mal que havia dificultado os últimos anos do Papa Wojtyla.

Martini, cada vez mais impedido na fala e nos movimentos, se consumiu lentamente, parecendo ainda mais essencial. Ele sempre havia sido capaz de palavras profundas e nunca banais, palavras de esperança até mesmo para quem estava distante da fé. Mas o sofrimento do último período o tornou próximo e companheiro de estrada para muitos doentes.

Seria equivocado, ao recordá-lo no dia em que morreu, falar da sua recusa à obstinação terapêutica por ele manifestada nos últimos tempos, como se isso representasse o último contraponto de Martini diante da doutrina "oficial". Vale a pena lembrar que a Igreja não é favorável à obstinação terapêutica, e que o Papa Wojtyla também não quis voltar ao Hospital Gemelli após a última crise.




Entrevista realizada com o Cardeal em 2010


Quando fixamos a data do nosso encontro, o cardeal Carlo Maria Martini me disse que o tema sobre o qual desejava que se desenvolvesse nossa conversação era o da Ressurreição. Fiquei um tanto espantado e até preocupado e lhe fiz observar que sobre aquele argumento teríamos muito pouco a nos dizer. Se há um ponto sobre o qual o não crente não tem nenhuma possibilidade de contato com um cristão douto como Martini é precisamente aquele. Mas, o cardeal insistiu. “Verá – me disse – que nós dois teremos muitas idéias a compartilhar sobre aquele argumento. De resto, a Ressurreição é a tempo o fulcro de minha vida e tenho muita vontade de discuti-lo com você”

Encontramo-nos aos 10 de maio passado em Galarate, na casa de repouso da Companhia de Jesus, onde Martini mora há alguns anos, após os meses passados em Jerusalém. Em dois anos esta é a terceira vez que vou procurá-lo. Entrementes nos escrevemos e sentimos e agora estamos em confidência. Eu o estimo muito e creio que ele também gosta de mim.

O tempo - é verdade - passa com grande rapidez, mas ele não me pareceu mudado. A voz se debilitou, sim, é menos sonora ou eu estou mais duro de ouvido. Aproximamos um pouco mais as poltronas sobre as quais estávamos sentados.

A reportagem é de de Eugenio Scalfari, publicada no jornal La Repubblica, 13-05-2010. A tradução é de Benno Dischinger.

"Você escreveu um livro recentemente", me disse ele.


Sim, "Uma viagem na modernidade". Temo que, se tiver vontade de lê-lo, não estará de acordo sobre muitas coisas. 

Não esteja tão certo disso: entre um crente como eu e um não crente como você os pontos de encontro são muitos, como já o verificamos.

É verdade – respondi – porém você me propôs um tema, a Ressurreição, que tem mais o aspecto de um desafio do que de um terreno de encontro. Quem, como eu, não crê no além-mundo, muito menos crê na Ressurreição de Jesus e na nossa. Você, no entanto, vê no Ressurrecturis o fulcro de sua vida espiritual. Pode explicar-me a razão? No fundo se trata de um milagre. Eu pensava que você fosse antes cético sobre os milagres. 


A Ressurreição de Cristo não é um milagre. O Deus que através do Filho assumiu natureza humana, após a morte sobre a cruz reassume sua natureza divina e imortal. 

Entendo. Mas, a ressurreição dos mortos? Aquilo é um milagre. 

É um mistério, um mistério da fé. Você me perguntou por que ela representa, para mim e para toda a comunidade dos fiéis, o fulcro de nossa vida. Procurarei explicá-lo. A Ressurreição dos mortos é um fato historicamente positivo. O Espírito ressurge em todos nós. Ressurge a cada dia, ressurge quando oramos, quando nos comunicamos comendo o pão e bebendo o vinho do Senhor, quando ressurgem em nós a caridade e a esperança do futuro, tanto o terreno quanto o extraterreno. A história do mundo não seria aquela que é se a esperança não alimentasse os nossos esforços e a caridade não iluminasse a nossa vida cotidiana. A Ressurreição do Espírito é a chama que impulsiona as rodas do mundo. Você pode imaginar um mundo sem caridade e sem esperança?

Não o imagino de fato. Mas, esperança e caridade iluminam também a vida dos não crentes ou pelo menos a de muitos deles. Nós não temos necessidade da fé, e o amor do próximo, a meu ver, deriva de um instinto que opera em cada um de nós. É o instinto da vida, o instinto da sociabilidade, o instinto da sobrevivência da espécie. 

Você pensa que aquele instinto esteja sempre presente em cada indivíduo?

Penso que esteja sempre latente, mas sempre em contraste com o amor de si próprio. A vida não é senão um eterno contraste entre estes dois elementos. A vida humana se apóia sobre a dinâmica destes dois elementos. 

Cada vez que o amor do próximo vence sobre o egoísmo do amor de si, aquele é o momento no qual o Espírito ressurge. O fato que você o chame de instinto não muda a tessitura da vida: para mim é a ressurreição.

Mas não a ressurreição dos mortos. 

Aquilo é um mistério da fé, um a mais que nos ajuda. Eu não o chamo de milagre, chamo-o necessidade. A necessidade de viver com caridade e esperança.

Cardeal Martini: você conheceu o teólogo Hans Küng? Conhece sua teologia?

Estávamos nós dois no Concílio Vaticano II. Temos a mesma idade, éramos então muito jovens, da mesma idade do papa Wojtyla. Depois o encontrei várias vezes, discutimos com freqüência, temos um bom relacionamento”. 

Küng faz uma afirmação muito clara em seu último livro. Diz que a fé ilumina a vida, mas que, para atingir a fé, se requer uma condição preliminar: é necessário acima de tudo amar a vida. Amá-la com um amor profundo. O amor pela vida é uma condição não suficiente, mas necessária para a maturação da consciência. Você está de acordo com esta posição?

Sim, estou de acordo com Küng. Penso também eu que seja preciso amar profundamente a vida para ser depois iluminados pela graça e pela fé. 

Tudo está em entender o que se entende quando se diz "amar profundamente a vida".

Você, o que pensa sobre isso? O que quer dizer?

Penso num amor responsável. Penso numa vida que não humilhe a vida dos outros, não lhe cause dano, mas antes a enriqueça de sentimentos e amadureça a humanidade que está em cada um de nós. 

Este é também o meu pensamento de cristão. O amor pela vida concebido deste modo é precisamente a condição necessária, embora insuficiente, que pode conduzir à fé. Ou então, parar naquela etapa inicial. 

Uma etapa imperfeita? Não perfeitamente madura?

* * *
Entendi que lhe custava muito responder a esta minha pergunta. Depois ele disse com um sopro de voz: “Uma gota de divino existe em cada homem. Somos as folhas dessemelhantes de uma única árvore. Não compete a mim distinguir as folhas mais bem sucedidas. Cristo disse: não julgueis”. 


Chovia a cântaros do lado de fora da janela. Trouxeram as pílulas para o cardeal e uma taça de chá para mim. As cortinas sobre os vidros eram adornadas com um recamo que me recordou minha casa de infância e a imagem de minha mãe. As preces que ela me fazia recitar às noites antes do sono. Pensei que os fiéis, os que crêem, aqueles verdadeiros, tinham permanecido um pouco crianças, mas depois afastei rapidamente aquele pensamento. Te sentes superior? Disse-me ele. És pó e pó voltarás a ser, por isso ele tem razão: não julgar. Eu lhe disse: “Na ressurreição não creio, mas creio no Gólgota”. 

"Estava para lhe perguntar isso. Diga-me".

"Creio no Gólgota porque ali foi celebrado o sacrifício de um justo, de um débil, de um pobre. Aquele sacrifício se repete a cada dia e é o verdadeiro e único pecado do mundo: o sacrifício, a aniquilação, a humilhação do pobre, do débil, do justo. O Gólgota configura o pecado do mundo". 

O cardeal olhou-me como se olha um catecúmeno, um olhar que me pareceu uma carícia. Notei que tinha um tique freqüente no olho esquerdo, seguidamente o fechava, mas quando o reabria era ainda mais expressivo que o outro. Creio que fosse o efeito de sua síndrome parkinsoniana, a mesma enfermidade do papa Wojtyla. 

Depois ele me disse: “Sim, o Gólgota representa o pecado do mundo. Às vezes a Igreja se ocupa de demasiados pecados e nem todos na Igreja sabem e sentem que aquele é o único, verdadeiro pecado: a aniquilação, a humilhação, o desconhecimento do próprio semelhante, tanto mais se é débil, se é pobre, se é excluído. E, se é um justo. Um que jamais faria coisas que humilham a dignidade da pessoa. O Gólgota deveria ser o início de um percurso penitencial que dura toda a vida”. 

Esta frase me golpeou; eu não tinha pensado num percurso penitencial. Quem estava envolvido naquele percurso de penitência? Perguntei-lhe e respondeu: “Todo o mundo”.

Mas, o vosso Cristo não tinha vindo para anunciar a salvação? Um pacto renovado entre o Senhor e os homens?

Exatamente. Trouxe a consciência do pecado que fora cometido e a necessidade de expiá-lo através da penitência.

Num outro encontro nosso você me falou da necessidade para a Igreja de revisitar o sacramento da confissão. Há um nexo entre aquele seu desejo e o que agora me disse?


A confissão deve ser para os cristãos o início de um percurso penitencial que dura toda a vida. Se o pecado é aquele que definimos como o verdadeiro pecado do mundo, a expiação não requer somente o ressarcimento material do dano; a expiação comporta muito mais: comporta a reeducação do pecador, a descoberta, de sua parte, de uma vida diversa. É a descoberta da alegria e do gáudio que aquela vida nova e diversa infunde em sua alma. 

Cardeal, tem presente o romance Ressurreição de Tolstoi?

Tem razão de recordá-lo. Aquele romance conta exatamente aquele percurso. O protagonista era um rico e jovem senhor que se aproveita e estupra um menor. Passam os anos e no fim o protagonista perdeu todo o seu patrimônio e é condenado e deportado à Sibéria, mas em sua consciência abriu caminho o sofrimento pelo que cometeu e a necessidade de expiá-lo. Quando a expiação toca o cume, sua alma se abre à consolação e à alegria. 

Você recordou Tolstoi; também Manzoni conta um processo análogo e a alegria que provém da expiação.

O inominado, seu arrependimento, o afã de expiar e a paz da alma que provoca a expiação.

"A pedofilia é um desses pecados?"

Eu ainda não tinha introduzido aquele tema, pois me parecia que fosse embaraçoso para um purpurado enfrentá-lo num colóquio com quem exerce profissão de jornalismo. Mas, num certo sentido era ele que me aduzira o tema. De fato respondeu sem hesitação. 

“A pedofilia é o mais grave dos pecados, não humilha somente a pessoa e o débil, mas viola precisamente o inocente. Acrescento: nos casos que se verificaram na Igreja os culpados são precisamente sacerdotes e bispos que têm como primeira tarefa a de educar os jovens e os jovenzinhos e devem, por conseguinte, relacionar-se com eles para cumprir seu magistério. Pode haver pecado mais grave do que este?”

A Igreja todavia condena o pecado mas perdoa o pecador. Não há aí contradição? O Papa assumiu um comportamento bastante rigoroso nestes últimos meses e até impôs um critério de transparência, convidando os bispos e os párocos a informarem a autoridade judiciária, distinguindo o crime do pecado. Gostaria de entender se isso tudo representa uma inovação do direito canônico. 

Não me ocupo de direito canônico porque neste caso ele tem bem pouco relevo. Quanto à denúncia do crime à autoria judiciária, direi que se trata de um ato absolutamente devido, pois a pedofilia é um grave crime em todos os códigos do mundo e é perseguido. Mas, tratando-se em geral de pessoas avançadas em anos, é lícito prever que a pena infligida pela autoridade judiciária teria uma execução relativamente breve. Em todo o caso, não é esse o ponto. Retorno ao tema da penitência e da expiação. Perdoa-se o pecador que cumpre um percurso penitencial que durará quanto dura sua vida terrestre. A expiação deve ser tão intensa que encha aquela alma e a faça assumir a tarefa de ressarcir quem sofreu o abuso. Digo ressarcir, mas não me refiro a um ressarcimento material que também é devido. Refiro-me a uma relação de almas. A alma do pecador não terá outro fim senão redimir-se, ressarcir os sentimentos violados, ressurgir. Somente desse modo encontrará a paz e a alegria.

* * *
Ele falara tudo num alento, gesticulando e agitando-se sobre sua poltrona. Também a voz subira de tom, tanto que depois se abandonou arquejante e fechou por um momento os olhos. 


Seu assistente, um jovem padre com fisionomia inteligente e modos cheios de atenção, assomou pela segunda vez: aquela pausa em nossa conversação talvez o tivesse alarmado. “Talvez esteja cansado”, disse, mas naquela altura o cardeal fez um gesto para dizer que de fato não estava cansado e queria continuar. Perguntei-lhe se houvera na história da Igreja santos que antes tinham sido pecadores. “Muitos”, respondeu. “O fato mais significativo de sua vida tem sido precisamente sua conversão do pecado à graça da fé junto ao início daquele percurso penitencial que os acompanhou até a morte”. 

Solicitei-lhe alguns nomes. “Menciono-lhe um por todos: o fundador de nossa Companhia, Santo Inácio. Contou-o ele próprio, pecou muito e fortemente, para dizê-lo com Lutero: sua conversão foi total, sua expiação longuíssima, acompanhada por um amor pela vida e pelas obras entre as quais precisamente a fundação de uma Companhia que após 400 anos é ainda uma das pilastras de nossa Igreja”.

Havia passado mais de uma hora e entendi que nosso encontro se encaminhava ao fim, mas ainda tinha muitas coisas a perguntar. Em particular, havia um tema que eu tinha a peito: a relação entre a missão pastoral da Igreja e sua organização institucional e hierárquica. Em suma: a Igreja como missão e a Igreja como centro de poder. 

Recorda, cardeal Martini? Você me contou, num encontro anterior, que no início do Conclave que elegeu há cinco anos o atual Pontífice, o senhor recordou aos seus co-irmãos reunidos na Sistina que o Conclave devia eleger o Bispo de Roma. O Papa tem de fato aquela função enquanto Bispo de Roma e como tal deve sempre permanecer. O senhor não me explicou então o sentido daquele seu discurso, me quer dizê-lo agora?

O sentido pode resultar obscuro para quem não atua na Igreja e para a Igreja, mas para nós é claríssimo. Os bispos são os sucessores dos apóstolos e a eles Jesus ditou uma só missão: ide e pregai aos povos a verdade, a caridade, difundi o Verbo, indicai o caminho. Esta é a missão dos Bispos, pastores de almas. Mas Jesus sabia que aquela missão devia ser encerrada numa bainha que lhe protegesse a essência e a preservasse no decurso dos séculos e dos milênios. Aquela que você chama instituição é precisamente a bainha organizacional, as Congregações, a Cúria, as finanças, os tribunais eclesiásticos. Servem para preservar a missão pastoral que representa a essência da Igreja.

O Papa é o Bispo de Roma e é o chefe da missão pastoral e da instituição. E então?

O Papa é o Bispo que senta sobre a sede que foi de Pedro. A missão pastoral é sua tarefa prevalente. O fato de que seja também um teólogo ou um diplomata ou um organizador é secundário. É e deve ser acima de tudo um pastor de almas que exerce aquela vocação junto com todos os outros Bispos.

Todavia, para grande parte de sua história, a Igreja foi sobretudo dominada pelo poder da instituição, e os Papas foram chefes de Estado e até guerreiros. O poder temporal sobrepujou a missão pastoral. 

Não penso que a tenha sobrepujado, mas certamente aconteceu que o poder e sua conservação tenham tido uma importância excessiva e a missão pastoral tenha sofrido os contragolpes. 

Ainda é assim também hoje?

Estes defeitos ainda subsistem, o poder temporal, em outras formas, é ainda uma tentação no interior da Igreja. Mas aquilo que nós chamamos o povo de Deus, os fiéis, o clero com cura de almas, as associações e o voluntariado católico, constituem a verdadeira bainha de custódia de nossa essência. 

Eu lhe faço uma última pergunta, porque estou abusando de seu tempo. A Igreja, para cumprir sua missão, deve ter contatos com os poderes públicos que encontra em seu caminho. Talvez encontre regimes de ditadura e tirania, e outras vezes regimes democráticos. São formas políticas indiferentes para a Igreja ou ela é chamada a fazer uma escolha entre elas?

A Igreja deve fazer uma escolha, embora ela deva incluir sistemas políticos estranhos à sua concepção. Até é próprio, nos territórios onde a liberdade e a igualdade são negadas, que o testemunho da Igreja se torna precioso. Mas, para mim não há dúvida: a Igreja que reivindica a liberdade religiosa, por isso mesmo compartilha princípios de liberdade, de igualdade, de inclusão, de respeito da dignidade das pessoas. Estes princípios valem, devem valer também no interior da Igreja, onde o Papa exerce sua missão junto ao Episcopado e ao povo de Deus, nas várias formas conciliares que nossa organização prevê.

* * *
O encontro tinha terminado. O jovem sacerdote entrara novamente para ajudar o cardeal a levantar-se. Eu lhe disse: “Da próxima vez quero vê-lo pular corda”. Olhou-me sorrindo e disse: “Volte logo”. Depois me acariciou a face com um toque rápido. Fiz o mesmo com ele. Estávamos os dois um pouco comovidos. Lá fora continuava chovendo.






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