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Quando a Superstição Transforma a Alma Numa "Usina de Fantasmas"


Carlos Moreira

Edmund Burke, filósofo e político anglo-irlandês do século XVIII, escreveu certa vez: “A superstição é a religião das mentes simples”. 

Eu penso que uma das coisas mais significativas que o Evangelho produz é a libertação, pelo conhecimento da Verdade, de todo tipo de superstição, sofisma e conceitos do senso comum que venham a se alojar na consciência do homem natural.

Mas o que é superstição? Trata-se de uma crença contrária à lógica formal, algo que vai de encontro à racionalidade e está baseado em tradições populares relacionadas ao pensamento mágico. O supersticioso acredita que rezas, feitiços, maldições e outros rituais possuem influência transcendental e podem alterar o destino das pessoas.

Nas minhas observações como pastor, sobretudo na escuta terapêutica, constatei um fenômeno curioso entre os “evangélicos”: muitos deles possuem um alto grau de superstição! Na maioria dos casos, tais crendices estão associadas à Teologia Moral de Causa e Efeito, aquela que faz com que haja uma ação de punição Divina sempre que o indivíduo realiza alguma coisa errada, uma espécie de bateu-levou.

Um dos exemplos mais comuns, trata dos que crêem que Deus os castiga sempre que eles deixam de dar o “dízimo”. Em tais circunstâncias, afirmam, “deus” libera o “devorador” – uma alegoria creditada a um tipo de gafanhoto que atacava ferozmente as lavouras e que aparece descrito no Velho Testamento – com vistas a que ele destrua objetos, cause transtornos diversos, desarticule oportunidades e, pasmem, provoque até enfermidades!

Cada vez mais, tenho encontrado pessoas atormentadas por neuroses que foram construídas a partir de suas percepções infundadas e da concatenação de uma teologia perversa, a qual, não raro, foi inoculada em suas consciências infantis através de “doutrinas” pregadas pela própria “igreja”. Aos poucos e, sem perceber, muitas delas acabam se tornando usinas de “fantasmas”.

Essa “patologia religiosa”, tristemente, tem destruído indivíduos tornando-os inválidos para a vida boa e simples. É que tais percepções, irremediavelmente, desenvolvem na alma uma espécie de vício psicológico que leva o sujeito a relacionar tudo de ruim que lhe acontece como sendo conseqüência de algo “errado” que ele fez. Na esmagadora maioria dos casos, entretanto, tais questões estão ligadas a fantasias, coisas totalmente dissociadas de qualquer dinâmica existencial que, de fato, possa produzir alguma coisa danosa ao ser.  

Coincidentemente, essa semana ouvi algo desta natureza... No relato, a pessoa me informava que havia descoberto que os problemas de seu casamento, que culminaram na separação, estavam associados ao fato de, no passado, o casal ter destruído muitos “despachos” em encruzilhadas, e isso sem estar devidamente “cobertos espiritualmente”.

Apesar da sinceridade da pessoa e de seu drama ser real, não é difícil averiguar a presença da fantasia produzida por uma consciência debilitada associada a uma alma ferida. Em seu “discurso”, fica claro o surgimento dos mecanismos de transferência, no caso repassando a responsabilidade pela falência do matrimônio para o “diabo”, seguido da questão da “doutrina” da “cobertura espiritual”, algo sem qualquer consistência do ponto de vista das Escrituras, mas que, em sua percepção, acabou os deixando sem o devido “isolamento” para lidar com as “cargas espirituais do mal”, além do total desconhecimento de doutrinas essenciais e elementares, como a da justificação pela fé.

Pois bem, essas questões que envolvem superstição e consciência aparecem com frequência nas Cartas de Paulo. Em 1ª. Coríntios capítulo 10 ele trata do tema de forma bastante lúcida. Observe: “Considerem o povo de Israel: os que comem dos sacrifícios não participam do altar? Portanto, que estou querendo dizer? Será que o sacrifício oferecido a um ídolo é alguma coisa? Ou o ídolo é alguma coisa? Não...”. 1 Co. 10:18-20

Paulo está fazendo uma analogia sobre a Ceia do Senhor. Sua argumentação é que aquele que come o que está no altar deve discernir o que o altar representa e também a quem ele está consagrado. Ora, quando trata do altar, do sacrifício e do ídolo pagão, afirma categoricamente que nada daquilo tem representação espiritual para aquele que está em Cristo Jesus, ou seja, ele está afirmando que, apesar dos poderes espirituais invisíveis existirem, a sua influência material real só tem aplicação para aquele que a ele credita alguma coisa, abrindo assim “portas” espirituais para a ação de demônios.

Caso contrário, tudo o que ali estiver exposto perde sua significação posto que o alimento que foi sacrificado ao ídolo, em si mesmo, nada representa: não é nem moral nem amoral, nem bom nem ruim, nem santo nem profano. Assim, só ganha representação para aquele que a ele credita alguma crença, a qual pode vir a transferir “poderes” do mundo espiritual para o mundo da matéria. 

E continua sua argumentação... “Se algum descrente o convidar para uma refeição... coma de tudo o que lhe for apresentado... Mas se alguém lhe disser: “Isto foi oferecido em sacrifício”, não coma, tanto por causa da pessoa que o comentou, como da consciência, isto é, da consciência do outro e não da sua própria...”. 1ª.  Co. 10:27-29.

Perceba que o que Paulo está afirmando é que, mesmo que eu coma algo que foi sacrificado ao ídolo, para mim, nenhuma influência terá, uma vez que minha consciência sabe que nem a comida nem o ídolo têm qualquer simbolização espiritual ou poder sobre minha vida. A única ressalva que o apóstolo faz, em circunstâncias desta natureza, diz respeito à presença de pessoas débeis na fé, ou seja, que não terão a compreensão da extensão da liberdade que há em Cristo, e, assim sendo, por amor a elas, e a sua fragilidade de entendimento e consciência, a abstenção deve ser praticada.

De fato, o que vejo, e isso cada vez mais, é que o povo dito de Deus não conhece nada das Escrituras, não sabe fazer uma exegese mínima dos textos bíblicos e, assim sendo, fica nas mãos de “feiticeiros do sagrado”, os quais lhe induzem, com frequência, ao erro. Por isso, tome essa análise aqui feita e a ponha em prática em sua vida. Ela tem aplicação direta para esta e muitas outras questões semelhantes.

Quando eu era solteiro, morava num bairro de Recife onde havia muitos “despachos”. Incontáveis vezes eu os destruí e, na autoridade do Nome de Jesus, desfiz o mal que eles carregavam contra outros. Como isso sempre acontecia tarde da noite, e, neste horário eu estava vindo ou da aula ou do trabalho, faminto, confesso que tive muitas vezes vontade de comer a galinha com a farofa que ali estava oferecida ao demônio! Talvez nunca o tenha feito porque não tinha nem prato nem talher para tal. Não fosse isto, o “capeta” ia era “dormir” com fome! 


O que sei é que em toda a minha existência, jamais creditei nada de bom ou de ruim que me aconteceu no chão da vida aos despachos que destruí naquela esquina. E olha que eu não tinha “cobertura espiritual” para me proteger! Na verdade, poderia citar aqui uma infinidade de versículos que me “imunizam” contra qualquer mal que seja lançado contra mim ou os meus, mas vou citar apenas um: “Filhinhos, vocês são de Deus e os venceram, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo.”. 1ª. Jo. 4:4.

Por isso, galinha em encruzilhada, vela preta, charuto, cachaça, farofa, despacho, macumba, maldição, mal olhado, mandinga, e o que mais vier, pra vocês, ó, tô nem aí! Fui!  


Carlos Moreira é editor assistente do Genizah e escreve também para a Nova Cristandade.








 

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