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Cartas a Lene - Sola Gratia

 Marcelo Lemos

Lene, o assunto desta nossa quarta correspondência é algo sobre o que você fala e escuta com muita frequência. Possivelmente, nenhuma outra palavra é tão utilizada inconscientemente pelas pessoas, cristãs ou não. Que cristãos a utilizem de modo incauto é muito mais triste, claro. Refiro-me a Graça. Que esse termo, no contexto bíblico e teológico, significa? E mais do que isso, vou lhe falar sobre Sola Gratia, outro dos cinco “Solas” da Reforma. E o que essa expressão teológica expressa?

Quando eu era garoto, envolvido pelo clima pentecostal da nossa família, expressões como “crente cheio da Graça”, significava coisas como “crente barulhento”, “saltitante”, “línguas estranhas”, “visões e profecias”, e assim por diante. O conceito de Graça não evocava em mim a ideia de Salvação primeiramente, mas sim, de “poder pentecostal”.  Ao longo do meu ministério pude observar que tal dissonância também acomete o entendimento de outros cristãos. Descobri que mesmo para cristãos não pentecostais, dizer-se “salvo pela Graça” é como dizer “Jesus me ama”, sem que nada de mais preciso se imponha sobre a fé e a prática.


O termo que traduzimos como “graça” é o grego “charis”, utilizado mais de 150 vezes no Novo Testamento. Com alguns dicionários de Grego em mãos (Strong, Thayer, NAS) encontraremos conceitos como “graça, favor, bondade, dom, presente, livre favor, etc”. É este o significado do termo que aparece constantemente relacionado a Doutrina da Salvação. Ser salvo pela Graça implica, portando, não possuir qualquer bem para oferecer a Deus em troca da Vida Eterna. Implica que se esperamos conquistar o favor de Deus, por nossos merecimentos, estamos afastados do Senhor, e desconhecemos o Evangelho.

“Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?” (Romanos 11:35). E alguns versículos antes, “Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça não é por graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra” (Romanos 11:6). “O homem não é justificado por obras da lei, e, sim, mediante a fé em Cristo Jesus, para que fossemos justificado pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois por obras da lei ninguém será justificado” (Galátas 2:16). “E é evidente que pela lei ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé” (Galátas 3:11). E escutemos o que Paulo diz à Igreja de Filipos: “... e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede da lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Filipenses 3:9).

Santo Agostinho, por exemplo, precisou lutar contra um grupo de hereges pelagianos, os quais ensinavam que a Graça de Deus é dada na medida dos merecimentos do homem. Ainda que os cristãos “romanos” pensem que não somos fieis ao pensamento de Agostinho, não é de se estranhar que o mesmo seja um grande herói para o pensamento Reformado, admirado por homens como Lutero e Calvino. Há, de fato, diferenças de pensamento, já que Agostinho defendia o “livre arbítrio”, enquanto os Reformados – especialmente calvinistas – no máximo aceitam existir “livre agencia”.  Mas não quero sobrecarrega-la com termos teológicos pesados - pelo menos não por enquanto [risos]. O que me interessa aqui é enfatizar que Agostinho, e também os Reformadores, negam que o homem pudesse, por sua própria força, mediante seus próprios méritos e obras, praticar o verdadeiro bem. Se o homem tem fé, se o homem se santifica, se o homem persevera até o fim, deve tudo isso a Graça de Deus, e não a si mesmo.

“Destas passagens e outras semelhantes nas Escrituras, recolhemos provas de que a Graça de Deus não é dada de acordo com os nossos méritos... Por isso o homem não deveria, mesmo quando começa a praticar boas obras, atribuí-las a si mesmo, mas a Deus!” – Santo Agostinho.

Assim é a Graça. Esta é a salvação ela Graça somente. Uma salvação onde o homem não tem nada a oferecer a Deus, pois mesmo o que possui, e tudo aquilo que oferece a Deus, primeiro recebeu d’Ele.

Ora, se isso é assim, que implicações tem para nossa vida cristã, Lene?

Em primeiro lugar, nosso cristianismo deveria se expressar numa vida consagrada.  Ser eleito por Deus não é apenas um grande privilégio, mas um grande e irresistível chamado à gratidão. O cristão, por natureza, desenvolve uma vida devota. Ele faz isso por gratidão. “Certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro cinquenta. E, não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais? E Simão, respondendo, disse: ‘Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou’. E Ele disse: ‘Julgaste bem’” (S. Lucas 7:41-43).

‘Não tendo eles como pagar’, enfatiza Cristo. É impossível compreender a fé evangélica sem assimilar o peso destas palavras: “não tendo como pagar”. Mas, aqui está não apenas a prova textual de que a Salvação é por Graça, mas também de que o eleito vive piedosamente, por amor a seu Salvador. Cristo ensinou assim, assim devemos crer e viver.

Em segundo lugar, nosso cristianismo deveria andar sempre alerta contra o vírus do legalismo. Esse ponto está intimamente ligado ao anterior. Mas, que bicho é esse? Em poucas palavras, legalista é a pessoa que condiciona a Salvação a observância de um conjunto de leis, reveladas ou criadas por homens. Não importa se a lei em questão é boa ou ruim, a pergunta é: pode um conjunto de regras salvar o homem? O apóstolo Paulo diz que não, mesmo quando falava das Leis Divinas.

Não quer dizer que o cristão possa viver alheios as Leis Divinas, mas sim que, sob a Graça, é o Espírito Santo quem escreve as Leis do Senhor no coração do homem. E aqui há um ‘paradoxo’ maravilhoso: se por um lado o cristão não pode se justificar perante Deus mostrando suas boas obras, por outro lado, se não tem obras para mostrar, sua fé é falsa! Se você pendurar laranjas em um limoeiro, não o fará laranjeira. O que Deus faz com o homem é o milagre de transformar “pé de limão” em “pé de laranja”.

Infelizmente, o ‘povo evangélico’ vive muito longe dessas verdades, apesar do nome que carregam. O que vemos em nossas Igrejas variações de uma mesma “religião de retribuição”, onde o homem vive sob a espada da incerteza de conseguir ou não agradar um Deus irado. Lene, a Salvação pela Graça nos diz simplesmente: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (S. João 5.24).

Ainda temos mais uma carta para trocar, um abraço em Cristo, Senhor Nosso.




Marcelo Lemos, editor do blog Olhar Reformado, e colaborador do Genizah.






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