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Cartas a Lene - Solus Christus



Lene, lembra-se de quando lhe disse, brincando: “Ainda vou trazê-la ao anglicanismo!”? Recorda qual foi tua reação? Você retrucou algo como: “Bem, primeiro preciso saber o que a sua religião ensina!”. Reação que não me surpreendeu. Ela é fruto de um preconceito muito comum em evangélicos brasileiros: imaginam eles que os ramos históricos da Igreja Evangélica, especialmente os da Primeira Reforma (Luteranos, seguidos por Anglicanos), são “meio-católicos-romanos”.

Isso se deve por algumas razões. Talvez porque mantivemos o governo episcopal na Igreja, baseado nas três Sagradas Ordens, o diaconato, o presbiterato, e o episcopado propriamente dito. Evidentemente os católicos-romanos não aceitam nossa Sucessão Apostólica como “válida”; a gente não liga, se ligássemos, não seríamos Reformados, né? Em segundo lugar, nós mantivemos muitos elementos da Arte Sacra, especialmente no que diz respeito a Liturgia e seus símbolos, como a Cruz. Na verdade, o problema não é sermos acusados de “católicos”, mas sim, o fato dos evangélicos brasileiros considerarem “católico” sinônimo de “Igreja de Roma”, “papado”, e assim por diante.

Ironicamente, quem nos acusa de “romanismo”, muitas vezes está mais perto de Roma do que nós, evangélicos históricos. Digo isso com tristeza. Ser evangélico tem alguma coisa com escolher entre um paletó ou um colarinho clerical? Ou ser evangélico tem haver com Doutrina? 



[Neste vídeo, de uma série, procuro responder as questões acima de modo resumido]

Seria maravilhoso que todos os 40 milhões de professos evangélicos listados no último Censo, conhecessem e praticassem aquilo que, de fato, é a Doutrina Evangélica. Nesta minha terceira carta a você, estarei falando sobre o principio reformado conhecido como Solus Christus, e mais uma vez você verá o quanto a nossa geração está afastada dos ideais dos Reformadores.

Somente Cristo. Que implicação tem esse conceito? Basicamente, significa dizer que nós, Reformados, não aceitamos que nada, nem ninguém, compartilhe ou rivalize nossa devoção, amor, fidelidade e fé na Pessoa do Cristo. Cristo é tudo, em todos. Cristo é tudo, é o centro. É o centro da Escritura. É o centro da Profecia. É o centro da Liturgia. É o centro do Evangelho. É o centro da devoção. É o centro da fé.

Com base nisso que as Igrejas Reformadas combatem, por exemplo, a devoção aos santos, às suas imagens e relíquias. Em tese, é fácil dizer que o povo não está adorando uma estátua, na prática, porém, a conversa é bem diferente. Ainda que Deus tenha ordenado a construção da Serpente de Bronze, quando o povo centralizou sua devoção naquela imagem, o mesmo Deus ordenou sua destruição. A idolatria, ainda que potencial, deve ser erradicada do coração da Igreja. Nada pode dividir o apreço que devemos a Cristo somente. Somente Cristo, nada mais, ninguém mais.

Mas não precisamos ir primeiramente a Igreja de Roma para ver o quanto a cristandade tem se afastado disso. Você provavelmente conseguirá a mesma coisa escutando qualquer sermão do Malafaia, do Macedo ou do Feliciano. Poderia dar outros exemplos, claro. Mas, que há de tão ruim nessas pregações? Essas pessoas não pregam Cristo; pelo menos, não o Cristo Crucificado. Eles pregam sobre “7 Passos Para a Vitória”, “O Grande Sacrifício dos Vencedores”, ou ainda, “Você Não Será Envergonhado!”. Lene: toda vez que um herói da Bíblia é usado para emular bons sentimentos em você, ou que a pregação vise dar-lhe uma boa dose de motivação, você está tirando Cristo do centro! O centro, nestes casos, é você! Em teologia, diríamos que a pregação da Igreja evangélica tem se tornado antropocêntrica (centrada no homem), quando deveria ser cristocentrica (centrada no Cristo).

Sobre isso João Calvino escreveu: “As Escrituras devem ser lidas com o objetivo de encontrar Cristo nelas. Quem se desvia desse objetivo, mesmo que dedique toda sua vida ao estudo, jamais chegará ao conhecimento da Verdade”. Essa centralidade pode ser facilmente verificada por um leitor atento do Livro (S. João 1.43-45; Atos 3.18; 17.2-3; II Tim. 3.14-15; I Ped. 1.10-12; Rom. 1.1-3; 16.25-27; etc). A crítica de Jesus contra os fariseus não era que eles levavam Moisés muito a sério, mas o contrário. Se levassem Moisés a sério realmente não duvidariam do Messias: “Porque, se vós crêsseis em Moisés creríeis em Mim; porque de Mim escreveu ele” (S. João 5.46).

A quem diga que devoções a imagens, apesar das práticas abusivas do povo, não implica em idolatria em seus arraiais, pois ensinam que a adoração deve ser prestada apenas a Deus. Os evangélicos modernos fazem a mesma coisa. Dizem adorar apenas a Deus, mas veneram pastores, apóstolos, bispos, toalinhas ungidas e sabonetes consagrados.


Estes objetos consagrados são garantia da salvação dos entes queridos, da felicidade, cura, e claro, muito dinheiro no bolso [bolso de quem?]

No entanto, quando Israel promoveu sua festinha ao Bezerro de Ouro, também pretendiam que fosse uma “festa ao SENHOR” (Êxodo 32.5). Coisa semelhante fez o apóstata Jeroboão. Sob pretexto de “facilitar” a adoração ao Deus Verdadeiro, ele criou imagens que servissem de “pontos de contato”, e as chamou de “deuses’. Jerusalém era longe, ele então quis facilitar as coisas, e com isso, não pretendia, em tese, rejeitar o culto ao Deus de Israel: “Muito trabalho vos será subir a Jerusalém; vês aqui teus deuses, ó Israel, que te fizeram subir da terra do Egito” (I Reis 12.28).

Lene, estes ídolos pretendiam facilitar a devoção ao Deus de Israel, mas era idolatria. A honra e a devoção devida exclusivamente a Deus foi estendida a representações visíveis d’Ele, e aos Seus olhos, escreve J.C. Ryle, bispo anglicano, “havia um ato flagrante de idolatria”. Você pode ler o tratado completo do bispo Ryle sobre Idolatria neste link dedicado as suas obras. A idolatria sempre baterá a porta de quem brinca com fogo. Você á ouviu falar, por exemplo, no Escapulário de Nossa Senhora do Monte Carmelo? Talvez você tenha escutado sobre os muitos milagres ligados a este sinal. Os romanos de plantão vão utilizar os comentários para nos dar uma lista deles (risos). Mas, que tal isso: dizem que a Virgem promete “salvação eterna” para quem morrer portando o mesmo, e em de Março de 1322, ela teria prometido também: “Eu, sua Mãe, baixarei graciosamente ao purgatório sábado seguinte à sua morte, e os lavarei daquelas penas e os levarei ao monte santo da vida eterna”. Tentem negar o quanto queiram, mas isso é idolatria!

Este escapulário é, segundo a Igreja de Roma, garantia de salvação, e curta temporada no Purgatório – menos de uma semana!

É idolatria. Quando o Padre Paulo Ricardo chamou os protestantes de “otários” que tentam chegar diretamente a Deus, isso ficou mais que provado para mim. Não importa que eles não chamem Maria de “deusa” ou “ídolo”. O Padre diz que “não podemos ir direto” a Fonte, precisamos obrigatoriamente de Maria. Isso é idolatria, pois tal necessidade é excluída pelas Escrituras. A Bíblia diz que, em Cristo, podemos “ousar” entrar na presença de Deus, com inteira confiança. Não é a Igreja “protestante” que ensina isso, nem nosso “orgulho”, como diz o Padre, mas S. Paulo, apóstolo:
“Visto que temos um Sumo Sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois não temos um Sumo Sacerdote incapaz de compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim Alguém que, como nós, em tudo foi tentado, porém, sem pecado. Assim sendo, aproximemo-nos com confiança do Trono da Graça com toda confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos Graça que nos ajude no momento de necessidade” (Hebreus 4.14-16).

Os “protestantes” não podem ir a Deus “direto”, eles o fazem através de um homem, Jesus Cristo, que é Deus Encarnado. “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (I Timóteo 2.5). Somente Cristo. Cristo é tudo. Tudo é para Cristo.

Estou terminando minha terceira carta, e estou assolado com o sentimento de ter tocado apenas a ponta de um Iceberg. Fico pensando em quantas mais implicações tem a Igreja aceitar a Supremacia completa e absoluta de Cristo em sua vida espiritual, mística e ética. Quão diferentes seríamos do que temos sido, Lene? Espero que esta carta te faça pensar nisso.




Marcelo Lemos, do blog Olhar Reformado, alfinetando no Genizah. O autor é Ministro leigo na Comunidade Anglicana Carisma.


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