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Preocupados com a Vida Eterna, os Cristãos Desprezam a Vida na Terra



Carlos Moreira

Acho curioso como, tão escandalosamente, a religião se contrapõe à proposta de Jesus. Enquanto o Evangelho se propõe a pacificar o coração dos homens, a religião promove o seu distanciamento; um sugere a transformação da consciência, a outra uma mudança comportamental; um trata do perdão dos pecados, a outra da realização de obras meritórias; um chama as pessoas a reconciliação com o Criador, a outra tenta convencer o Criador a aceitar as criaturas.

Não é a toa que muitos filósofos e pensadores, olhando para a história da civilização humana, mantiveram diante da religião um olhar crítico, cético e por vezes, cínico. Heinrich Heine, escritor e poeta alemão, num tom sarcástico, afirmou certa vez: “bem-vinda seja uma religião que derrama no amargo cálice da sofredora espécie humana algumas doces, soníferas gotas de ópio espiritual...” Marx, pai do socialismo científico, não economizou “tinta”, e vociferou à seu tempo: “a religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração. É o ópio do povo”. Hegel, um dos mais respeitados filósofos, pai do idealismo absoluto, apesar de ter estudado no seminário protestante de Württemberg, era outro que via a religião como alienação da essência humana.

Friedrich Engels, um dos criadores da teoria do materialismo histórico e dialético, no século XIX, fez uma avaliação bastante lúcida sobre a religião cristã ao longo do tempo. Ele afirmava que, primeiramente, a cristandade foi uma religião dos pobres, dos desterrados, dos condenados e oprimidos. Todavia, não demorou muito para, no século III, se estabelecer como ideologia estatal do Império Romano. Em seguida, já na idade média, alinhou-se perfeitamente com a hierarquia feudal européia e, logo depois, a partir da revolução industrial, já na modernidade, amalgamou-se a sociedade burguesa.

Eu penso que uma das coisas mais imprescindíveis nestes tempos difíceis que vivemos é manter um olhar analítico e crítico a respeito de nossa própria história. Nosso objetivo deve ser repensar que papel nos cabe no mundo que vivemos, na sociedade na qual estamos inseridos, com vistas a materializarmos, com ações concretas, as propostas que possam vir a ressignificar o que afirmamos ser a fé em Jesus Cristo.

Contudo e, tristemente, o que tenho visto, cada vez mais, é o entorpecimento, a alienação, a “massa manipulada”, a “teologia” do comodismo que sacrifica sobre o altar da conveniência, a substituição da singularidade da unidade pela burrificação da unanimidade. Vejo os cristãos preocupados com a vida eterna, “labutando” em busca de garantir o futuro, sonhando com o galardão prometido, enquanto a humanidade se esvazia por completo de qualquer possibilidade de encontrar na existência significados, e a Terra agoniza pela exploração de seus recursos cada vez mais escassos.

Olho as igrejas lotadas de gente, não raro, vazia, egoísta, vivendo uma espiritualidade adoecida, que olha para si mesmo, mas não é capaz de perceber o próximo. Os cristãos estão enredados com movimentos, programas, seminários, shows, cultos, atividades que são justificadas pela velha máxima: evangelizar os perdidos! Você dificilmente encontrará essa gente em passeatas que reivindiquem questões sociais importantes, ou engajadas em ONG´s e outras organizações que lutem por direitos dos menos favorecidos, ou participando de projetos que viabilizem o desenvolvimento sustentável do planeta. Não, o “negócio” dos “crentes” é buscar o sobrenatural! Deixa que o natural se acabe, se desmantele, se extinga...   

Eu cresci ouvindo chavões do tipo: “crente não se envolve com política”; “a Terra está sendo “entesourada” para o fogo eterno”; “temos de cuidar dos da família da fé”. Por isso os políticos evangélicos são os mais corruptos do Congresso Nacional, a Terra está sofrendo com "dores de parto", levada a superar todos os seus limites, e os que não fazem parte de nossa “confraria” agonizam pelas ruas, nas cracolândias da vida, nas sarjetas da existência, nos hospitais, nos presídios, nas favelas. Só de pensar tenho calafrios... "Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes". Mt. 25:41-43

Nossa religião é “espiritualidade” de ocasião, com choro de encenação e contrição de momento. Tiago, em sua epístola, escrevendo para os judeus da dispersão, gente ainda impregnada pela “religião de Israel”, afirmou que essa religiosidade calcada sobre a fé, mas que não possui boas obras, para nada aproveita. Parafraseando o apóstolo, poderia perguntar: “mostra-me onde estais, com a tua fé, e eu, com o meu engajamento em questões prementes da humanidade, te mostrarei a minha!”.

Gramsci, filósofo e cientista político italiano do século XIX, analisando na sociedade contemporânea a cultura religiosa, concluiu que ela é “a utopia mais gigante, a mais metafísica que a história jamais conheceu, desde que é a tentativa mais grandiosa de reconciliar, em forma mitológica, as reais contradições da vida histórica”. Em outras palavras, a religião é artigo de luxo, serve apenas para “anestesiar a alma”, mas tem pouca ou nenhuma utilidade para o espírito dos homens.

Enquanto a “igreja” continuar alienada entre quatro paredes, embevecida com suas próprias obras, pensando na vida no além, o mundo padecerá com “cólicas” sociais, milhões morrerão de fome, de frio, de sede, de maus tratos, gente que não poderá ser “evangelizada” porque estará enterrada numa cova rasa! Sim, enquanto ficamos apenas “orando” e “louvando” ao “senhor”, os rios estão sendo poluídos, as matas devastadas, o ar contaminado, os animais extintos, a camada de ozônio destruída. “Aleluia irmãos!”...

Com a ajuda que estamos dando ao “diabo”, ele nem precisa se ocupar em fazer o que Jesus afirmou: “matar, roubar e destruir”. Pode tirar férias e ir para Boca Raton! Minha oração nestes dias é ver menos gente “entulhada” dentro da “igreja”, ou seja, aqueles que não fazem nada, não tem compromisso com nada, e mais gente em sindicatos, OSCIP´s, organizações de direitos humanos, gente que se interesse pelo que seu candidato evangélico está fazendo, gente que vá as ruas, que proteste contra tudo o que ferir a dignidade humana, que seja “Elias” em nosso tempo, profetas que denunciem a injustiça e a maldade, e não aspirantes de feiticeiros, adivinhando o futuro dos outros.

Se eu creio na vida eterna? Claro que sim! Se eu a espero? De todo o coração! Se estou na expectativa da volta de Jesus? Oxalá fosse hoje! Mas até que tudo isso se torne realidade para mim, tenho muito o que fazer aqui na Terra pois, parafraseando Paulo, ainda não completei a carreira para poder guardar a fé e receber a minha coroa, a qual o Justo Juiz me dará naquele dia! Sim, afirmo com toda autoridade: quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz a Igreja!


Carlos Moreira é culpado por tudo o que escreve. Ele é editor assistente do Genizah e posta também na Nova Cristandade



 

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