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Em vídeo, Gondin responde aos seus acusadores com uma cortina de fumaça



Marcelo Lemos

O pastor Ricardo Gondim, Assembleia de Deus Betesda, resolveu dar uma resposta às críticas que sua teologia vem recebendo. A atitude é louvável. Contudo, faz uso de algumas falácias que chegam a ser desanimadoras. A pior delas é alegar que o “mundo evangélico” se preocupa mais com a “sã doutrina” do que com “os valores éticos”. Em outras palavras: se um líder mantem a “sã doutrina”, não importa o quanto ele seja corrupto, os evangélicos se darão por satisfeitos.

Antes de prosseguirmos (e o texto vai ser um pouco longo), talvez o leitor queira assistir ao vídeo:








Há vários problemas na fala de Gondim.

1. Primeiro, que ele não distingue “evangélico” de “evangélico”. Tem gente que acha que Testemunha de Jeová é “evangélico”, mas sabemos que não. De igual modo, quais evangélicos toleram a corrupção e combatem a falsa doutrina? Será que todos aqueles que criticaram a má teologia de Gondim estão neste grupo? Ou será que eles combatem as duas coisas? São questões elementares que demonstram a tentativa de Gondim nos empurrar para um dilema que simplesmente inexiste.

2. Segundo, ele confessa – involuntariamente, acredito – que o erro doutrinário é menos grave que o erro ético. Ou seja, se uma pessoa é ética, logo, pode ser um falso mestre e ensinar a mentira. Mas, fica a pergunta: ensinar a mentira é ético? Os leitores sabem que sou anglicano, e provavelmente sabem que não faço parte daquela que é a denominação oficial da Comunhão Anglicana no Brasil. Qual a razão? Ora, confesso que o trabalho de tais anglicanos é muito sério, e que sob vários aspectos são uma comunidade melhor que muitas pentecostais e até reformadas. No entanto, em seu liberalismo teológico ensinam a mentira. Eu? Sem nenhuma pretensão de ser perfeito, espero ajudar construir uma Igreja que ensine a verdade, e que caminhe corretamente, de modo ético, guiada pela Lei do Senhor. Não existe ética sem verdade, não existe verdade sem ética.

3. Terceiro, o Pastor Gondim se diz preocupado com o fato de que, neste momento, quando estamos precisando de “critérios éticos” (para avaliar um líder religioso), a Igreja esteja perdendo tempo com “vírgulas e pontos”. Novamente a ideia tola de que o erro doutrinário seja menos grave que o erro ético. Não é. E acrescenta um terceiro erro: minimiza a gravidade de suas heresias. Para ele, suas heresias limitam-se a debates sobre “virgulas” e “pontos”, quando na verdade ele está jogando no lixo DOIS MIL ANOS de Cristianismo!

O pastor afirma que não existe teologia que não possa ser questionada, já que a mesma é humana e não divina. Certo. Contudo, a Palavra de Deus é divina. É um erro achar que a teologia liberal simplesmente questiona a teologia conservadora. Ela faz isso, mas o faz justamente porque a teologia conservadora teima em manter que a Palavra de Deus é inquestionável. Os conservadores acreditam quando a Bíblia fala da condenação eterna. Os liberais não. Os conservadores acreditam quando a Bíblia fala do Segundo Advento. Os liberais não. Os conservadores acreditam quando a Bíblia diz que relações homossexuais são pecaminosas. Os liberais não. O arminiano pode questionar o sistema calvinista, mas não pode questionar a Soberania de Deus - neste caso, se faria herege. Eu posso questionar a tradição do chamado “arrebatamento secreto”, mas não posso questionar o fato de que Cristo irá retornar fisicamente a Terra, pois isso é claramente ensinado no Novo Testamento.

Sempre digo que estou aberto a rever qualquer posição teológica que tenho; desde que o interlocutor me prove que a Escritura ensina diferente da minha teologia. Foi assim que deixei o pentecostalismo, o arminianismo e o dispensacionalismo. Eu não me importo com o que dizem filósofos, políticos, sociólogos, jornalistas, poetas, romancistas. Minha preocupação é com o Sola Scriptura. Apenas a Escritura é regra de fé para mim. Nós anglicanos, bem como os demais cristãos herdeiros da Reforma, confessamos que “a Escritura Sagrada contém todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo o que nela nãos e lê, nem por ela se pode provar, não deve ser exigido de pessoa alguma que seja crido como artigo de fé ou julgado como requerido ou necessário para a salvação” (39 Artigos da Religião, VI).

Resumindo, se a Bíblia ensina algo, o cristão deve crer e praticar, do contrário, ninguém deve julga-lo. E foi justamente com base neste princípio que homens como Lutero e Calvino buscaram reformar a tradição cristã. Gondim diz que tem a mesma autoridade de Lutero e de Calvino para questionar os erros da Teologia. Isso é completamente falso. Nem Lutero, Calvino ou Gondim tem essa autoridade. A autoridade de Lutero e Calvino, e de qualquer outro reformador, nascia do seu apego a Sola Scriptura, e de nenhuma outra fonte. Tudo que os Reformadores disseram foi: se a Bíblia ordena, cremos e praticamos, se a Bíblia não ordena, não cremos e não praticamos. Não deixamos de orar diante das imagens porque Lutero não gostasse delas, mas porque a Bíblia não ordena tal coisa. Essa autoridade a Bíblia dá a todos os cristãos, em todos os tempos. Não é uma autoridade para desfazer-se do Dogma Cristão, mas para purificá-lo daquilo que não é dogma, mas que foi agregado como se fosse.

Toda a fala de Gondim pareceu-me cortina de fumaça; uma fumaça erudita e culta, mas ainda assim, fumaça. Suas observações fogem do que realmente está em debate.

Está em questão se Gondim acredita no evangelho realmente. Ele usa o termo evangelho. Ele prega o termo Evangelho. Ele escreve a cerca de algum Evangelho. Mas, acredita ele ainda no Evangelho. Evangelho com letra maiúscula. Observe o leitor que este termo não foi inventado por Cristo, pois já era largamente utilizado no mundo antigo. Qualquer boa notícia era evangelho: um filho que retornada da guerra, um príncipe que conquistava o inimigo, a animal perdido que era encontrado. Mas a boa nova inaugurada por Cristo assumiu o status de Evangelho, e já não é mais uma questão de etimologia, mas de fé. Quero dizer ao leitor que o termo evangelho, por si mesmo, assim como o termo “evangélico”, não significa absolutamente nada. É a fé nos ensinos do Cristo que nos conduz ao Evangelho.

Gondim afirma querer levar o mundo o conhecimento do evangelho, um evangelho baseado no liberalismo teológico, na Teologia da Libertação, e no ecumenismo – e não somente diálogo! - com outras religiões. No evangelho de Gondim não há lugar para um Deus absolutamente soberano, que controla e determina todas as coisas, inclusive o Mal (mesmo o mal natural). No evangelho de Gondim não há lugar para o exclusivismo da fé Cristã, apenas, talvez, haja lugar para um exclusivismo de um Cristo meio cósmico, que se faz ver em pequenas luzes aqui e ali. Consequentemente, não há, no evangelho de Gondim, lugar para o céu crido pelos Cristãos ao longo de 2000 anos, nem lugar para o Inferno...

Ao meditar na fala de Gondim, tive a impressão de que a salvação, para ele e seus pares, tem mais haver com Karl Marx, o ateu, do que com as palavras do carpinteiro humilde nascido na Galileia. Gondim diz ter feito a opção pelo pobre, ainda que este pobre tenha sido definido pelo burguês barbudo de Tréveris... Negar as palavras do Galileu não me parece com um optar pelos pobres, mas com condená-los ao fogo eterno; neste pecado parece estar incorrendo Gondim, Boff, Beto, Freire, e tantos outros teólogos liberais e ‘revolucionários’. Além do ‘evangelho’ Segundo Allan Kardec, talvez exista também o ‘evangelho’ segundo Karl Marx.

Gondim quer cuidar de gente. Isso é ótimo. Gondim quer líderes que valorizem a ética, e não apenas a boa teologia. Isso também é bom. Infelizmente, Gondim não fez a lição de casa. Ele se diz admirador – discípulo, talvez? – do teólogo liberal Paul Tillich, um queridinho entre os reformados mais ‘descolados’ aqui no Brasil. Bem, parece que o líder da Betesda considera a teologia de Tillich coisa boa, mas espero que ele não julgue boa sua conduta moral: sabidamente, Paul Tillich foi adultero e mulherengo, a ponto de sua viúva, Hannah Tillich, ter escrito um livro sobre o assunto. Na capa da obra podemos ler: “... tinha um lado mulherengo que outros prefeririam não falar (...) um livro que fala sobre alguns de seus muitos casos amorosos...”.

Sim, muita gente prefere não falar. Via de regra, quem gosta de teologia de Tillich, não costuma falar de sua imoralidade.

E agora Gondim? Como é mesmo aquela história de valorizar mais a teologia que a ética? A cortina de fumaça se desfaz, mas em uma coisa concordo com Gondim: ele não leva mais jeito para a prática apologética, seu tempo acabou, a menos que se arrependa e volte a crer no Evangelho, se um dia já o fez. 






Marcelo Lemos, do Olhar Reformado para o Genizah.



NOTA DO EDITOR


Como o Genizah abriga muita gente inteligente e de linhas teológicas diferentes - gente envolvida no pastoreio e no campo missionário, na academia, na missão social, no ativismo, nas artes - na missão integral da igreja, enfim... Muitos perfis de servos, mas que em comum, amam a Palavra e assumem a tarefa apologética neste momento de nossa história, é de se esperar que venham outras respostas enfatizando aspectos e pontos de vista distintos. Preparem a pipoca. Afinal, apesar das diferenças todos aqui são combatentes tanto do teísmo aberto, quanto da teologia da prosperidade.

De minha parte, aproveito este post do Marcelo para levantar um ponto que particularmente me aborreceu. Até por ter sido no passado grande admirador dos textos de Gondim, em especial os da Ultimato, tendo inclusive me manifestado abertamente neste mesmo blog, em alguns posts anteriores ao seu surto teológico.

Nunca imaginei que poderia observar em Gondim traços de déspota religioso, como se observa em “ungidões”, como Silas Malafaia, a quem o próprio Gondim, sempre quis parecer tão superior. Contudo, em sua defesa, tal qual fazem Silas, Macedo e outros ditadores da(s) fé(zes), começa sua refutação por desqualificar os oponentes que lhe criticam.

Obviamente, diante de tantos expoentes neste lado da arquibancada, Gondim começou seus ataques desqualificando os "peixes grandes", os pastores que se metem em política, “crime” do qual ele se julga imune e, em seguida, divaga genericamente sobre grandes testemunhos de falta de ética, moral e até crimes de amplitude internacional - referencia obvia a Caio Fábio e ao episodio Caymam.

Faz-se de pouco conhecedor do assunto, da real inocência de Caio e distante dos fatos e das repercussões de tudo o que se deu naquele e após aquele momento, incluindo  as disputas de espaço no espólio de Caio, mantendo o discurso do sonso, de quem nada sabe, quando, na verdade, conhece os fatos na intimidade que sempre teve ali, mostrando novamente o tráira que é e fazendo um discurso para "a galera" que, parafraseando, o próprio Caio - não citando, veja bem a diferença! - não resiste um olhar na alma.

Não estou aqui a defender Caio, nem pelas críticas que fez ao “deus coleguinha, sentado a beira do caminha, chorando as pitangas das mazelas dos pobres mortais, dos oprimidos, como se impotente assistisse o curso da história, sem governá-la”, nem em relação às "grandes nádegas" ou ao episódio específico em questão. 

Tão pouco tenho procuração de Caio para defende-lo aqui ou em qualquer lugar e nem mesmo sei se Caio assistiu a tal vídeo. Não conversei com ele sobre isto. Acho até mesmo que o Caio ficará contrariado, quando e se, porventura, vir a ler este meu desabafo; mas o faço mesmo assim.

Tendo conhecido esta história e testemunhado seus recentes desdobramentos, muitos, inclusive, desvendados, em célebre entrevista (LEIA AQUI) feita no início deste ano, custa-me calar e não constatar o óbvio da estratégia suja de Gondim que também não se esqueceu do Genizah quando se referiu a "humoristas debochados".

Obviamente, Gondim também quer se fazer de pouco entendido no que se refere ao uso do humor, recurso que ele próprio usou muito - em textos reproduzidos aqui mesmo no Genizah, como a série de "frases de igreja que eu não aguento mais" - para denunciar o sistema, o que é muito diferente - e ele sabe muito bem disto- daquilo que fazem os ímpios oportunistas, quando "deitam e rolam" nos escândalos da igreja evangélica ou nos temas relacionados a nossa fé, sem qualquer finalidade apologética, obviamente, até porque nem mesmo crêem.
Gondim se comporta como qualquer falso profeta quando acusado: Foge do cerne da questão, desqualifica o adversário com mentiras e generalizações e corre para a galera em meio a uma cortina de fumaça. Em cada extremo das grandes heresias da nossa igreja do - deus fraco dos pseudo-intelectuais – ao deus financista da turma de Silas Malafaia, o mesmo comportamento ditatorial.


Danilo Fernandes




 

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