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Confissões de um amigo médico

por Zé Luís

“Por que Deus me deu um filho para tirá-lo numa mesa de cirurgia, ainda tão jovem? “

Essa era a pergunta desesperada de uma mãe evangélica assembleiana, feita a um amigo médico, quando notificada, em profunda dor e agonia, do falecimento de sua filha. Pergunta essa, que normalmente, nós que cremos nos céus, preferimos não responder.

A criança morrera nas mãos daquele profissional, no meio de uma operação, e um tom embargado em seu relato denunciava uma humanidade inesperada em sua postura aparentemente serena e até um pouco indiferente. Costumo dizer – a ele - que nós, simples mortais, quando olhamos para um médico, cremos que esses seres, pelo constante contato com dor e morte, venceram em definitivo a sensibilidade às lágrimas, lamentos e choros, que estão imunes aos gemidos dos estranhos.

Certa vez, um experiente cirurgião contou-me sobre um residente – que desabara em lágrimas diante da morte de uma criança que perdera a luta contra sua doença: uma parte do aprendizado manda que o momento do óbito é para o lamento exclusivo do parente, direito dado ao próximo daquele que morre. Se um profissional da área desaba perante um desconhecido, o que aquele que vê a morte de um filho, um pai, uma mãe, um amor, fará para mostrar quanta dor está sentindo? Jogar-se-á de uma ponte?

Mesmo ciente disso, naquele dia, meu amigo não conseguiu conter as lágrimas diante de tamanha tragédia, e soluçava ao telefone quando atendi a ligação. É cotidiano esse tipo de fatalidade em sua área de atuação, ainda mais ele, que já tinha assinado alguns atestados de óbito durante quase duas décadas de atuação. Mas aquela morte acabou sendo a gota que faz o balde transbordar.

A mãe do paciente já foi? - perguntou ao residente que o auxiliava e, diante da resposta positiva, desabou, chorando copiosamente, desesperado, fracassando em manter o pacto estabelecido da aparência indiferente para momentos como esse.

Em lágrimas, como uma criança que chora a ausência do pai, desabafava:
As vezes, somos apenas mãos esforçando-se, segurando desesperadamente pessoas para não caírem no precipício da morte... mas eles são tão pesados, e apesar de todo esforço, nossas mãos não serão indefinidamente fortes para evitar que se despedacem... - lamentou, aos soluços.

Não me lembro de tê-lo ouvido chorar antes, nem depois daquele episódio, jamais entraríamos no assunto novamente (por ser amigo, jamais revelaria aqui sua identidade, já que entre seus colegas de profissão, esse tipo de confissão é inadmissível).

Essa sensação de mãos frágeis diante da responsabilidade do peso do próximo gravitacionando para a destruição de quando em vez, não é uma exclusividade dos que exercem a medicina. Angustiar-se diante dessa sensação de inutilidade, de impotência, de fracasso, apesar de todos os esforços: não se conformar com as eminentes perdas para o abismo, traz a sensação amarga do quanto essa existência pode parecer ingrata, e a luta pela vida ser sempre uma batalha perdida. Parece que o vencido diabo, mesmo esmagado debaixo da autoridade do sangue do Cordeiro, ainda gargalha, satisfeito, caçoando de nossa condição prolongadamente precária.

Creio que os sinceros, que procuram iterar-se nas coisas da religião, o fazem na esperança de obter forças extras nas mãos, resistir mais alguns instantes, quando a morte vier buscar seus candidatos, de ter cartas na manga diante das jogadas do destino que todo homem que anda pela terra terá.

A morte ainda não foi vencida, e tudo que fazemos, é adiá-la. Que bom se, em sua vida, não existe a necessidade de olhá-la nos olhos com frequência, mas bom seria se, como instruí o escritor de Eclesiastes, andássemos na casa do luto (Ec 7.2) para não esquecermos de nossos destinos.

Como iria sua alma se tivesse que, todos os dias, conviver com a tristeza de desconhecidos em pungente perda e/ou angustia? Que dinheiro paga isso? Valeria a pena manter nossas emoções funcionando em perfeito estado (e isso implica sofrer quando se tem que sofrer, em ambientes de pura dor)?

O tal amigo é um daqueles cristãos sinceros, tão raros nos dias de hoje (e como verdadeiros cristãos, se entitulam dessa forma por seguirem o que ensina o Cristo, imitando-o) e foi ele mesmo que me respondeu tal questão, não através de um recital de versículos bíblicos, mas de suas práticas embasadas no que conta as Escrituras:

“Amor, Zé...”- respondeu, diante de minhas indagações –“Não fosse esse amor inexplicável que inunda minha alma, essa matéria no qual Deus é constituído, toda essa miséria seria insuportável.”

Creio que Paulo, quando enviou sua primeira carta aos corintios (capítulo 13), exemplifica melhor a máxima do meu amigo. Transcrevo-as abaixo:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine, ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes, mas não tivesse amor, nada seria. Ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e entregasse meu corpo para ser queimado, mas sem amor, nada disso me aproveitaria.

O amor é sofredor, é benigno; o amor não inveja, não conta vantagens, não fica “se achando”, não se porta inconvenientemente, não busca seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas sim com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...


O Zé é privilegiado com amigos, e escreve para alguns no Genizah



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