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Você tem Fome de Quê?



Carlos Moreira

Alguns afirmam que já somos mais de 7,0 bilhões de pessoas no planeta. Nossa capacidade de produzir alimento, todavia, está para bem além deste número, ou seja, seria possível, hoje, saciar a fome da humanidade! Mas por uma conjuntura de fatores e interesses – políticos, econômicos, empresariais, sócio-culturais e até religiosos – pessoas continuarão morrendo sem ter o que comer, principalmente nos países do terceiro mundo e, de forma assustadora, no continente africano.

No passado, as nações guerreavam por causa da necessidade de terras. Quanto mais território, mais capacidade de produzir, de desenvolver a agricultura e a pecuária. Isto gerava vantagens na hora de negociar mercadorias, de exportar ao invés de importar, de fazer trocas e realizar negócios. Hoje, todavia, que adianta ter terras se não se possui as técnicas e máquinas necessárias para explorá-las, para transformar em riqueza aquilo que o solo oferece de graça. A guerra agora é pela tecnologia, pelo conhecimento, pela informação.

Eu tenho uma questão: você já passou fome? Sabe o que é ter a necessidade de se alimentar e não ter o que comer? Você já viu pessoas em busca de alimento: velhos, crianças, homens e mulheres, gente que, não tendo como se fartar, chega ao absurdo de comer lixo, aquilo que você joga fora, que não presta mais! Você já viu isso, ainda que em um filme?

E mais... Esta questão lhe choca de alguma forma? Você acha que ela lhe diz respeito? Bem, eu lhe afirmo que, provavelmente, não, porque essa situação está banalizada nos grandes centros urbanos, nós nos acostumamos com tudo, até com a desgraça a nossa porta. Creia-me, o imponderável pode se tornar comum pela repetição, a exaustão da exposição a uma determinada “cena” transforma o trágico em habitual, o sofrimento em coisa normal, o absurdo em nostálgico e o inaceitável em casual. A parábola do "Rico e Lázaro" nos ensina isto de forma objetiva. 

“Jesus respondeu: "A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais miraculosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos”. Jo. 6:26.

Já havia três dias que Jesus estava expondo as verdades do Reino de Deus a uma grande multidão que se aglomerara em torno dele no meio do nada. Elas estavam famintas, exaustas e perdidas. “Tenho compaixão desta gente”, disse o Galileu. Mas sua percepção ia para bem além do “estômago”. Ele sabia que aquelas pessoas precisavam comer, mas aquele tipo de fome podia ser saciada. O problema estava em outras dimensões, numa “fome” que não se aplaca facilmente, algo que às vezes só a sepultura consegue extinguir. Por isso o Nazareno falou sobre o fermento dos fariseus, que fazia o "pão" crescer, mas na perspectiva errada...". 

Todas as semanas eu vejo as pessoas se amontoando nas igrejas. Não há uma em que eu não seja procurado por dezenas que precisam de ajuda espiritual. É gente com fome... Mas, não raro, percebo que sua necessidade não tem nada a ver com o “Pão” que desceu do céu, pois elas não estão em busca de Jesus, de direção, de consolação, de confrontação, de sentidos e significados para o ser, de um propósito para existir que vá para além do espaço que se criou entre o prato e a boca, elas estão em busca de outro tipo de “comida”, de saciedade.

Você tem fome? E tem fome de quê? Há os que têm “fome” por questões existenciais. Estão em busca de poder, de ter, de crescer, de aparecer, de fazer. É gente que quer vencer no mundo, e não ao mundo, quer chegar ao “topo da pirâmide”, ir até o “pináculo do templo”. Eles só pensam no status quo, nas primeiras filas, nos lugares de destaque, nas aparições na mídia. Houve um homem assim, que queria dominar todos e tudo. Seu nome era Alexandre, “o grande”. Hoje, na lápide do seu mausoléu, está escrito: “um túmulo basta agora para quem não bastava o mundo inteiro”.        

Você tem fome? E tem fome de quê? Há os que têm “fome” de prazer. Eles precisam ser felizes a qualquer custo, usufruir o momento, sorver cada gole de vida que lhes for possível, aproveitar cada instante como se fosse o último. Sim, buscam o que é “bom” e “belo”, o que faz a alma suspirar, o frenesi, a adrenalina. Não importa o que seja necessário: pode ser o sexo casual, fortuito, reciclado, banal; pode ser droga em forma líquida, pastosa, pedrada, seja para beber, para fumar, para cheirar; pode ser malhar, cortar, costurar, inflar, pintar, modelar, embelezar o corpo, adornar o exterior, parecer sem ser, pois ainda que do lado de fora tudo esteja lindo, o interior não passa de uma casa de aves de rapina, mal cheirosa e devastada.     

Você tem fome? E tem fome de quê? Há os que têm “fome” de coisas. Eles buscam comprar, vender, trocar, amontoar. Precisam gerir posses, produzir bens, pois só se sentem seguros com dinheiro no bolso e ações na bolsa. Desgraçadamente, tornaram-se escravos do supérfluo, desejam o que não necessitam, correm atrás do que não precisam, quanto mais acumulam mais querem, possuem tudo e não têm nada; é gente pobre, cega e nu!

Naquela manhã, enquanto alimentava aquela gente, Jesus não discerniu apenas o imediato, o tangível, o concreto. Ele viu que a fome humana não era apenas aquela que fazia doer o estômago, mas uma que se projetava para muito além, pois naquela geração – arquetípica – estavam todas as gerações. 

Por isso, afirmou profeticamente, “vocês me procuram não por causa do milagre, mas por causa do pão”, ou seja, o que vocês desejam não é a mim, mas aquilo que é próprio do chão da Terra, vocês não estão em busca do sobrenatural, mas do material, não desejam o transcendente, mas apenas aquilo que não os deixe “famintos” e carentes.

Você tem fome? E tem fome de quê? No sermão da montanha, em Mateus capítulo 5, Jesus fala dos que tem fome de justiça. Ele nos revela esta marca inquestionável do Reino de Deus. Quem dera na Terra houvesse gente com essa fome! As nações seriam diferentes, as relações seriam diferentes, os homens seriam diferentes!

Triste é reconhecer que os cristãos em nossos dias estão tão preocupados com suas questiúnculas pessoais que esqueceram que as multidões precisam ser "alimentadas", continuam exaustas e famintas! Sim, enquanto houver crianças mendigando pão, velhos pedindo esmolas nas esquinas, pais de família catando lixo para alimentar seus filhos e jovens cheirando cola para enganar a fome, a igreja atesta sua incompetência, sua incoerência e sua indecência. Enquanto não houver justiça entre os homens, o Reino de Deus será apenas uma utopia da religião, um discurso bonito entre os que tem fé, mas não tem obras.   

Infelizmente, eu pertenço há este tempo e faço parte desta geração que, notadamente, possui outros "apetites". Assumo minha parcela de culpa e não me eximo de minhas responsabilidades. Sei que vivemos um momento da história humana onde come-se lixo e  arrota-se caviar. Mas, fazer o quê? Para todos nós, implacavelmente, aplicam-se as palavras de Sêneca: “a fome não é exigente: basta contentá-la; como, não importa”.


Carlos Moreira é coeditor do Genizah e também escreve para a Nova Cristandade.



 

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