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Alma de Lata, Coração de Pedra e Nervos de Aço



Carlos Moreira

Eu fui me desumanizando aos poucos, num processo lento, imperceptível. A transformação de um ser humano em “máquina” é uma das grandes “maravilhas” da sociedade contemporânea. É quase inacreditável, mas, quando você se dá conta, seus sentimentos já se embotaram, sua alma ficou árida, ácida, sua sensibilidade exilou-se nas cavernas sombrias do seu ser, seu coração tornou-se impermeável. Como diz a canção nostálgica do Pink Floyd, agora você está “confortavelmente anestesiado”.

Eu não sei como tudo começou... Talvez ainda bem cedo, na adolescência, quando me apaixonei pela informática. Lembro de Alan Turing: “as máquinas me surpreendem com muita freqüência”. Nos últimos 25 anos tenho trabalhado com computadores desenvolvendo sistemas. Durante boa parte deste tempo, convivi mais com eles do que com gente, acabaram tornando-se tão íntimos que nós até conversávamos, era possível demonstrar raiva, frustração, alegria, e outros sentimentos que, quando eu era humano, sentia...

Nesta mesma época eu tive contato com a “religião”. Minha experiência de conversão mudou minha forma de agir, mas não minha maneira de pensar. Talvez este tenha sido o maior de todos os problemas, eu me tornei “mestre em Israel”, mas minha alma estava esvaziada de valores como a misericórdia, a compaixão, o perdão, a humildade e o amor. Meu lado “máquina”, movido pela “letra que mata”, me converteu num soldado lutando pela causa da “igreja”, mas eu ainda não podia perceber o quão estava distante de Jesus de Nazaré e do Evangelho.

É difícil admitir, mas, em pouco tempo, havia me tornado um workaholic espiritual, um jovem “viciado” em fazer, realizar, pois tudo era urgente, o mundo estava perdido! Minha agenda surpreendia até pastores: eu evangelizava nos hospitais, cantava nas praças, pregava nas ruas, me reunia em pequenos grupos, participava de cultos, vigílias, reuniões de oração, escola dominical, movimentos de todo tipo, da minha comunidade e de outras, lia compulsivamente as Escrituras, livros devocionais, comentários bíblicos, ouvia mensagens pela TV, em fita cassete, eu não parava, eu não descansava, afinal, estava investindo tudo no “reino”, acumulando “galardão”, servindo ao “senhor”.   

Hoje, olhando para trás, vejo que tudo aquilo foi feito por mim e para mim, não para Deus. Era a minha obra, o meu reino, o meu ministério, as minhas prioridades, os meus caminhos, a minha mensagem, o meu evangelho, as minhas convicções. Ao largo de tudo aquilo estava Jesus; nós estávamos no mesmo caminho, mas caminhando de maneira totalmente diferente. Não creio que Ele tenha desprezado a minha alma, pois eu “estava perdido, mas fui achado, estava morto, mas revivi...”.

Sei que demorou muito até eu perceber, pois a “máquina” estava programada para cumprir, não para pensar, para falar, não para ouvir, para ler, não para discernir, para trabalhar, não para amar. Eu “acordei” quando me voltei para as Escrituras: “pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram”. Mt. 25:35-36. Sim, na minha religião só havia Deus e eu, mas não existia o outro e, sem o outro, não há como amar a Deus, pois, se não amo aquele a quem vejo, como poderei amar a Deus, a quem não posso enxergar?!

Eu já estive muito ocupado com a “obra de deus”, mas, há alguns anos, isto mudou. Percebi que havia me embrutecido, me tornado duro, amargo, implacável. Sim, com um currículo com tantas realizações, era difícil algo me desafiar, mexer comigo. Mas da mesma forma como eu me perdi de mim mesmo, Deus foi me trazendo de volta, me resgatando para que eu pudesse ser aquilo para o qual fui concebido, e não aquilo que a religião havia feito de mim.

Como o “Pródigo”, eu havia chegado ao fim do trilho, no fundo do poço. Tinha “subido” institucionalmente, mas minha alma beirava o inferno, “sofria de distâncias”, revolvia-me em agonias e inquietações, padecia de calafrios ao meio dia. Eu era a antítese daquilo que havia sido chamado para encarnar no chão da Terra, havia me transformado num RoboCop da fé, sobrara de mim mesmo apenas os vestígios de um homem, minha alma era de lata, meu coração de pedra e meus nervos de aço.

A “viagem” de volta foi insólita... Eu andei pelo vale da sombra da morte; tinha todos os sintomas de quem estava sucumbindo, ainda que os médicos e os exames atestassem que minha saúde era boa. Eu me olhava e não me reconhecia, estava exausto aos 40 anos, havia feito tantas coisas e, ainda assim, sentia como se nunca tivesse feito nada, tornara-me um escravo da performance, neurotizado com metas e números.

Nos próximos anos, todavia, eu irei me dedicar mais a Deus, por isso, “trabalharei” bem menos para Ele. A duras penas aprendi que o que Jesus deseja é muito diferente do que eu estava fazendo. O Evangelho é simples, mas, como diz o sábio, “o simples é o contrário do fácil”.

Quer saber do que ele trata? Leia Isaías... “o jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada, e prontamente surgirá a sua cura; a sua retidão irá adiante de você, e a glória do Senhor estará na sua retaguarda”. Is. 58:6-8. Creia: é apenas isto...


Carlos Moreira é coeditor do Genizah e também escreve para a Nova Cristandade.



 

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