Para além dos medos e preconceitos



Hermes C. Fernandes

Pra que servem os muros, afinal? Para segregar e delimitar propriedade. A Igreja de Cristo deveria estar no ramo de demolição, e não de construção de muros. Em Cristo, tudo o que nos separa deve ser transposto.

Não se pode usar textos isolados das Escrituras para justificar qualquer tipo de segregação. A igreja é lugar de congregar, e não de segregar. Seu ambiente deve possibilitar o intercâmbio, a troca de experiências, a partilha de recursos. Nela as pessoas devem se sentir à vontade para amar e se deixarem amar, independentemente de posição social, etnia ou faixa etária.

Quem promove segregação demonstra não ter entendido a amplitude da obra consumada na Cruz. Veja o que Paulo diz aos Efésios:

“Portanto, lembrai-vos de que vós outrora éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão, feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Ef.2:11-12).

Tal era a nossa condição antes que Cristo vertesse Seu sangue na Cruz. Éramos todos alienados de Deus, e segregados uns dos outros. A Cruz foi a resposta de Deus à alienação humana.

Pausa pra respirar fundo. Agora deixemos que Paulo prossiga em sua explanação:

“Mas AGORA em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegaste perto. Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um, e destruiu a parede de separação, a barreira de inimizade que estava no meio, desfazendo na sua carne” (vv.13-14).

ACABOU! O muro ruiu! Deus unificou os povos, e deu à humanidade um novo nome: IGREJA.
Isso mesmo que acabei de dizer. A Igreja nada mais é do que a nova humanidade, isto é, a humanidade reformada, reconfigurada, renovada.

Todas as distinções caíram por terra. “Assim já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus” (v.19).

Foi a Cruz que rompeu com o muro de inimizade que havia entre os homens. Pena que tantos ministérios trabalhem para reconstruir o que custou tão caro para Deus derrubar.

Seguindo esta mesma linha de raciocínio, Paulo diz em outra passagem:

“Desta forma não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea, pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl.3:28).

Parafraseando o verso, diríamos: Não há mais branco, negro ou índio. Não há mais patrão ou empregado. Não há mais distinção sexista. Ninguém deve ser julgado pela cor de sua pele, por sua posição social, ou por seu gênero sexual. Todos fomos nivelados pela Cruz.

Embora os muros já tenham sido derrubados, eles ainda habitam nosso imaginário, como verdadeiras fortalezas espirituais que precisam ser dinamitadas (2 Co.10:4).

A serpente do paraíso agora se arroga a guardiã dos muros. Ninguém é mais conservador do que o diabo. Ele prefere as coisas do jeito que estão. Por isso, luta pela manutenção do Status Quo.

Lemos em Eclesiastes 10:8:

“Quem fizer uma cova, cairá nela; quem romper um muro, uma cobra o morderá.”

Esta cobra, representação do diabo, é quem mantém as pessoas afastadas do muro. O controle que ela exerce é pela via do medo do desconhecido. E assim, ela consegue manter as pessoas aprisionadas em seu próprio mundinho particular.

Um ótimo filme sobre este tema é A Vila, do diretor indiano M. Night Shyamalan, que retrata os habitantes de um vilarejo encravado numa floresta, que vivem isolados do mundo exterior, pois ninguém pode cruzar a fronteira do bosque que cerca o lugar. Muitos anos antes foi firmado uma espécie de pacto com os estranhos seres que vivem na mata, e nenhum humano pode se aventurar bosque adentro ou coisas terríveis podem acontecer. Quando alguns animais começam a aparecer esfolados e marcas vermelhas amanhecem nas portas das casas de todos, fica evidente que a paz com os habitantes da floresta foi de alguma forma perturbada. O jovem Lucius é o único com coragem para atravessar o bosque em busca de remédios para seu povo, mas é contido pelos anciãos do vilarejo. A impressão inicial é que a história se dá em séculos passados. Mas no final do filme, para a surpresa de todos, descobre-se que a trama se desenrola nos tempos atuais, e que todo aquele mistério nada mais era do que uma mentira inventada pelos fundadores da vila, para manter seus habitantes longe do contacto com o mundo exterior.

Os crentes primitivos tiveram sua fase de “A Vila”. A ordem de Jesus foi clara: Deveriam ficar em Jerusalém até que fossem revestidos do poder do Espírito Santo. A partir daí, deveriam se espalhar pelo mundo, atravessar fronteiras, ir ao encontro de outras culturas, e pregar o Evangelho destemidamente. Mas o que eles fizeram? Ficaram plantados em Jerusalém. Deus teve que permitir uma perseguição implacável contra a igreja, para que os discípulos se deixassem espalhar.

Romper o muro é deixar nossa zona de conforto e sair ao encontro do desconhecido, do imprevisível, sem se importar com as ameaças da serpente.

Em sua despedida dos Efésios, Paulo desabafa: “E agora, compelido pelo Espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que lá me há de acontecer. Somente sei o que o Espírito Santo de cidade em cidade me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações” (At.20:22-23). Quem aceitaria ir nessas condições? Quem, de bom grado, deixaria um lugar onde se é amado, para aventurar-se num lugar onde se é odiado?

Parafraseando Paulo: - Tudo bem! Eu não tenho minha vida por preciosa! O que me interessa é cumprir com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus (v. 24).

Em outra de suas viagens, desta vez para Roma, Paulo sofreu uma naufrágio, e foi parar numa ilha chamada Malta, juntamente com toda a tripulação do navio.

Enquanto se aquecia ao redor de uma fogueira, uma serpente saltou do fogo e se apegou à sua mão. “Quando os nativos viram a serpente pendurada na mão dele, diziam uns aos outros: Certamente este homem é homicida; pois embora salvo do mar, a Justiça não o deixa viver” (At.28:4).

Se Paulo fosse julgado pelos critérios com que os ministérios de hoje são avaliados, diríamos que ele foi um completo fracasso. Ele nunca constituiu uma mega-igreja. Nunca viajou de primeira-classe. Os habitantes de Malta tinham razão em desconfiar dele. O que não sabiam é que aquela serpente era como que um aviso para que Paulo se mantivesse longe daquela gente. O que Paulo fez? “Mas, sacudindo ele a cobra no fogo, não sofreu mal nenhum. Eles esperavam que Paulo viesse a inchar ou a cair morto de repente, mas tendo esperando muito tempo e vendo que nenhum incômodo lhe sobrevinha, mudando de parecer, diziam que era um deus” (vv.5-6). Resultado: os nativos daquela ilha foram alcançados pelo Evangelho.

Não podemos permitir que a serpente se nos apegue à mão, isto é, comprometa nossa obra no Senhor. Seu veneno já não tem qualquer poder de nocividade contra nós.

Que venham as ameaças. Não temos nossa vida por preciosa! Que venham as mordidas de serpentes, seu veneno será neutralizado. Seu bote já não nos aterroriza.

Cristo destruiu o que tinha o império da morte, a saber, o diabo, e libertou todos os que estavam presos pelo medo da morte (Hb. 2:14).

Maior é o que está em nós! E não estou falando de triunfalismo barato, mas de confiança n’Aquele que nos enviou a transpor os muros, e que garantiu que pegaríamos nas serpentes, e que nenhum mal nos sucederia (Mc.16:15-17).

E quanto a guardiã dos muros? Seu destino está selado. Em breve será esmagada sob os nossos pés (Rm.16:20).



Graça Barata X Graça Preciosa


Robinson Cavalcanti


"Não convide as pessoas a aceitar o Senhor Jesus Cristo como Salvador, mas para aceitar o Salvador Jesus Cristo como Senhor. Isso fará uma diferença na decisão e nos decididos" , ensinava o meu discipulador, o missionário batista inglês Dionísio Pape (que me presenteou com o LOC brasileiro de 1930).


O teólogo e mártir luterano alemão Dietrich Bonhoefer falava em uma "graça barata" , de um aceitar Jesus superficialmente, egoisticamente, descomprometidamente, somente para garantir um passaporte para o céu; e uma "graça preciosa" , que carrega a cruz, que gera discípulos, que gera compromisso com o Reino de Deus e os seus valores. O "Ide" é não somente para "anunciar o Evangelho" , mas, também, para "fazer discípulos" .

A religião cristã é integral e integrada, mas, contemporaneamente, foi esquartejada em três propostas parcializantes: a "religião de salvação" , a "religião de libertação" e a "a religião de resultados" .

A primeira se esgota no anúncio da necessidade do novo nascimento; a segunda na necessidade de encarnarmos os valores do Reino de Deus de Justiça e de Paz em um mundo de opressões, exclusões e injustiças; a terceira na ênfase pastoral quanto às necessidades humanas de cura de suas enfermidades espirituais, emocionais e físicas, e de suas carências de emprego, segurança, paz doméstica etc.

Essa divisão demonstra como o pecado embota o entendimento e fragiliza a missão. Somos uma religião de salvação, de libertação e de resultados.
A Igreja deve integrar todos esses aspectos, e observar, periodicamente, onde está forte ou fraca, e canalizar para o altar os dons naturais, ou talentos, e os dons espirituais recebidos do Espírito Santo por seus fiéis.

A Graça Preciosa tem um "antes" e um "depois" , uma perdição e uma salvação. Mas, essa mudança não deve se vincular ao legalismo ou ao moralismo (deixar de fumar, beber, dançar etc.), mas a substituição da obra da carne: inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, glutonaria, impureza etc., pelo fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, mansidão, domínio próprio etc. Não é uma questão de exterioridades ou regrinhas repressivas, mas de algo que vem de dentro surge um novo caráter e um novo temperamento. Esse deve ser o conteúdo dos "testemunhos" dos convertidos.

"Aquele que está em Cristo nova criatura é, as coisas velhas já passaram, e eis que tudo se fez novo" (Ap. Paulo).


Edward Robinson de Barros Cavalcanti é um teólogo, político e bispo da Igreja Anglicana do Cone Sul da América, comandando a diocese de Recife. Foi professor da Universidade Federal de Pernambuco e escreveu dez obras sobre religião. Em 1997 foi eleito bispo da diocese de Recife. Como bispo diocesano, ordenou 57 diáconos e 49 presbíteros. Nesses sete anos foram abertas 34 das presentes 44 comunidades da Diocese Anglicana do Recife.





P?ergunte ao P?astor 7



Podemos dizer que um pastor que não cursou teologia, é um pastor sem pedigree?

Os pagãos são aqueles que pagam pela salvação?

Havendo cisão numa igreja Quadrangular, surgirão duas Triangulares?

Do cruzamento do louva-deus com a joaninha, nasce uma santa Joaninha?

O salmo 119 traduzido para o grego é um salmão a grega?

Uma oração coordenada é aquela em que cada sujeito fala na sua vez?

O que se vende na loja maçônica?

O Mar Vermelho é porque correu pra ele o sangue do Mar Morto?

É verdade que um gremista não entra na Igreja Internacional da Graça?

Louva-deus que anda com pulga acredita em purgatório?

Louva-deus que não dá o dízimo é comido por gafanhotos?

Só um crente -cego pode decretar: "está amarrado"?
Malaquias era um profeta chato?

A teologia da libertação é incompatível com a teologia do "tá amarrado"?

Congregação é uma igreja em que todos falam grego? Um casal que se separa, mas que continua crendo nas mesmas coisas, está rompendo em fé? Se uma pessoa distribui folhetos no ponto-de-ônibus, ela está abrindo um ponto-de-pregação? O contrário de unção é dois é? É verdade que unção outros não?




Quem? Quem? Quem? Wilson Tonioli do Verticontes, claro.



Novo olhar sobre o universo


Frei Betto


Carlos Mesters, o mais popular biblista do Brasil, sublinha que há no Antigo Testamento dois decálogos, o da Aliança e o da Criação. O da Aliança surgiu primeiro, embora o outro já existisse. Ocorre que o povo de Deus, por não levar a sério o da Aliança, não tinha olhos para perceber o Decálogo da Criação.

Ao longo dos 400 anos da monarquia (de 1000 a 600 a.C.), Javé, o Deus libertador do Êxodo, foi reduzido a um ídolo manipulado pelos poderes civil e religioso para legitimar a corrupção e a ganância dos reis. E ninguém dava ouvidos às denúncias dos profetas. Até que Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu a Palestina em 587 a.C. e destruiu Jerusalém.

O choque da dominação e do exílio abriu os olhos do povo de Deus para o Decálogo da Criação: "O ritmo da natureza, do sol, da lua, das estações, das chuvas, das estrelas, das plantas, revela o poder criador de Deus" - afirma Mesters. "É a expressão do bem-querer do Deus Criador, da pura gratuidade! É uma certeza que não falha. É a prova de que Deus não rejeitou seu povo. Nossa fraqueza pode levar-nos a romper com Deus (como de fato aconteceu), mas Deus não rompe conosco, pois cada manhã, através da sequência dos dias e das noites, ele nos fala ao coração".

Nossa visão do mundo interfere em nossa visão de Deus, assim como o modo de concebermos Deus influi na visão que temos da vida e do mundo. Ao longo de 1.000 anos predominou, no Ocidente, a cosmovisão de Ptolomeu, que considerava a Terra o centro do Universo. Isso favoreceu a hegemonia espiritual, cultural e econômica da Igreja, encarada pela fé como imagem da Jerusalém Celeste.

Com o advento da Idade Moderna, graças à nova cosmovisão de Copérnico, logo completada por Galileu e Newton, constatou-se que a Terra é apenas um pequeno planeta que, qual mulata de escola de samba, dança em torno da própria cintura (24 horas, dia e noite) e do mestre-sala, o sol (365 dias, um ano). O paradigma da fé deu lugar à razão, a religião à ciência, Deus ao ser humano. Passou-se da visão geocêntrica à heliocêntrica, da teocêntrica à antropocêntrica.

Agora, a modernidade cede lugar à pós-modernidade. Mais uma vez, nossa visão do Universo sofre radicais mudanças. Newton cede lugar a Einstein, e o advento da astrofísica e da física quântica nos obrigam a encarar o Universo de modo diferente e, portanto, também a ideia de Deus.

Se na Idade Média Deus habitava "lá em cima" e, na Idade Moderna, "aqui embaixo", dentro do coração humano, agora conhecemos melhor o que o apóstolo Paulo quis dizer ao afirmar: "Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os poetas de vocês disseram: 'Somos da raça do próprio Deus'" (Atos dos Apóstolos 17, 27-28).

A física quântica, que penetra a intimidade do átomo e descreve a dança das partículas subatômicas, nos ensina que toda a matéria, em todo o Universo, não passa de energia condensada. No interior do átomo, a nossa lógica cartesiana não funciona, pois ali predomina o princípio da indeterminação, ou seja, não se pode prever com exatidão o movimento das partículas subatômicas. Essa imprevisibilidade só predomina em duas instâncias do Universo: no interior do átomo e na liberdade humana.

Em que a física quântica modifica nossa visão do Universo? Ela nos livra dos conceitos de Newton, de que o Universo é um grande relógio montado pelo divino Relojoeiro e cujo funcionamento pode ser bem conhecido estudando cada uma de suas peças. A física quântica ensina que não há o sujeito observador (o ser humano) frente ao objeto observado (o Universo). Tudo está intimamente interligado. O bater de asas de uma borboleta no Japão desencadeia uma tempestade na América do Sul... Nosso modo de examinar as partículas que se movem no interior do átomo interfere no percurso delas... Tudo que existe coexiste, subsiste, pré-existe, e há uma inseparável interação entre o ser humano e a natureza. O que fazemos à Terra provoca uma reação da parte dela. Não estamos acima dela, somos parte e resultado dela; ela é Pacha Mama ou, como diziam os antigos gregos, Gaia, um ser vivo. Deveríamos manter com ela uma relação inteligente de sustentabilidade.

Esse novo paradigma científico nos permite contemplar o Universo com novos olhos. Nem tudo é Deus, mas Deus se revela em tudo. Nossa visão religiosa é agora pananteísta. Não confundir com panteísta. O panteísmo diz que todas as coisas são Deus. O pananteísmo, que Deus está em todas as coisas. "Nele vivemos, nos movemos e existimos", como disse Paulo. E Jesus nos ensina que Deus é amor, essa energia que atrai todas as coisas, desde as moléculas que estruturam uma pedra às pessoas que comungam um projeto de vida.

Como dizia Teilhard de Chardin, no amor tudo converge, de átomos, moléculas e células que formam os tecidos e órgãos do nosso corpo às galáxias que se aglomeram múltiplas nesta nossa Casa Comum que chamamos, não de Pluriverso, mas de Universo.


Frei Betto, autor de 51 livros, editados no Brasil e no exterior. Estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. Frade dominicano. Divulgação Genizah



Enchendo as bordas da Mediocridade


Hermes C. Fernandes

Uma das principais características do cristianismo primitivo era a generosidade. Os cristãos tinham prazer em dispor de seus recursos pelo Reino de Deus e pela sua justiça.

Bastou que o povo fosse exposto à Palavra e a atuação do Espírito Santo, para que brotasse em seus corações a disposição de partilhar seus pertences. Lucas relata que “os que de bom grado receberam a sua palavra foram batizados (...). E perseveraram na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At.2:41a, 42).

Geralmente se acredita que o tal “partir do pão” era uma referência à Ceia. Porém, examinando melhor o contexto da passagem, veremos que o partir do pão nada mais é do que compartilhar os recursos entre si.

A nova natureza infundida pelo Espírito no coração dos crentes, os impulsionava a viver para Deus e para os seus semelhantes, e não mais centrados em si mesmos.

Paulo, apóstolo dos gentios, endossa este princípio em suas epístolas, ao ordenar que partilhássemos “com os santos nas suas necessidades” (Rm.12:13). Como um visionário, Paulo entendia que a Igreja deveria ser uma agência catalisadora e distribuidora de recursos. Através da semeadura, os bens seriam distribuídos, e assim, todos desfrutariam igualmente dos recursos enviados por Deus.

Ao pedir que os crentes de Corinto participassem desta graça, Paulo escreve:

“Mas, não digo isto para que os outros tenham alívio, e vós aperto, mas para igualdade. Neste tempo presente, a vossa abundância supra a falta dos outros, para também a sua abundância supra a vossa falta, e haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve demais, e o que pouco, não teve falta” (2 Co.8:13-15).

Repare que Paulo usa a analogia da semeadura para estimular os crentes a partilharem uns com os outros. O mesmo conceito é repetido por Pedro: “Servi uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe.4:10). O que Deus dá a uns, é para que seja usado para benefício de todos. Deus não é injusto por dar a uns o que nega a outros. Pelo contrário: Através disso, a justiça de Deus se manifesta, fazendo com que dependamos uns dos outros. Ninguém é auto-suficiente no Reino de Deus. A igualdade ocorre quando a abundância de uns supre a falta de outros, e vice-versa. É isso que comumente chamamos de Reinismo.


Respeitando o princípio da semeadura, Paulo diz que nossa semeadura deveria ser “expressão de generosidade, e não de avareza” (2 C.9:5b). E mais: “O que semeia pouco, pouco também ceifará, e o que semeia com fartura, com fartura também ceifará” (v.6).

Paulo não está propondo que haja competição pra ver quem dá mais. Nem está estimulando a cobiça dos irmãos, para que dêem interessados no resultado. Não! A colheita também deverá ser repartida, de modo que todos sejam beneficiados.

Segundo o Apóstolo, a Deus compete prover a semente, mas a nós compete semeá-la: “Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, e pão para o alimento, também multiplicará a vossa sementeira, e aumentará os frutos da vossa justiça” (2 Co.9:10).

Veja, ainda dependemos de freqüentes intervenções de Deus. Ele ainda multiplica... não mais pães ou peixes, e sim a nossa sementeira. Ele dá a semente. Ele provê oportunidades de trabalho, aptidões profissionais, força física, inspiração e motivação. Mas cabe-nos usar todos estes recursos para o bem comum, e não apenas para satisfação de nossas necessidades e cobiças.

Tiago afirma em sua epístola, que o motivo de muitos pedidos não serem atendidos por Deus é que pedimos mal: “Pedis e não recebeis porque pedis mal, para o gastardes em vossos prazeres” (Tg.4:3). Pedir mal é pedir pensando somente em si. Devemos pedir que Deus multiplique nossa sementeira, para que possamos ser bênção na vida de outros.

Multiplicando nossa sementeira, Ele faz aumentar os frutos da nossa justiça. E desta maneira, Ele espalha recursos, em vez de fazê-los concentrar em algumas mãos somente. Paulo revela que o propósito de Deus é “fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra. Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre”(vv.8-9).

Eis a justiça do Reino de Deus em operação. Sua meta é espalhar recursos, e distribuí-los justamente. Isso é o inverso do sistema que vemos no mundo, onde as riquezas são concentradas em poucas mãos.

A famigerada Teologia da Prosperidade é a filha caçula do Capitalismo selvagem, pois prega a concentração de riquezas como um sinal da bênção de Deus. Segunda sua linha de raciocínio, abençoado é quem, apesar da crise, consegue amealhar o máximo de bens materiais. Deus não nos chamou para sermos abençoados! Deus nos chamou para sermos bênção! Tudo o que Ele nos der, será visando o benefício dos que estiverem à nossa volta.

Sempre me emociono com o testemunho que Paulo dá acerca das igrejas da Macedônia, que “em muita prova de tribulação houve abundância do seu gozo, e a sua profunda pobreza transbordou em riquezas da sua generosidade.” Ele prossegue: “Pois segundo as suas posses (o que eu mesmo testifico), e ainda acima delas, deram voluntariamente. Pedindo-nos com muitos rogos o privilégio de participarem deste serviço, que se fazia para com os santos. E não somente fizeram como nós esperávamos, mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor, e depois a nós, pela vontade de Deus” (2 Co.8:1-5).

Eis o que Deus espera de nós: que transbordemos em generosidade. Que façamos mais do que nos tem sido pedido. Que o espírito legalista com que alguns dão o dízimo seja ofuscado pela generosidade daqueles que vão muito além dos 10%. E que além de disponibilizar nossos recursos materiais, também nos ofereçamos para servir, tanto a Deus, quanto ao nosso semelhante.

Qual o resultado de tal postura? Deixemos que Jesus mesmo nos diga:


“Daí, e dar-se-vos-á. Boa medida, recalcada, sacudida e transbordante, generosamente vos darão. Pois com a mesma medida com que medirdes vos medirão também” (Lc.6:38).


Medida transbordante é aquela que ultrapassa os limites da borda. É o equivalente ao cálice transbordante do Salmo 23. Tudo o que ultrapassa a borda, atinge o que estiver ao redor. Queremos medida transbordante para que possamos abençoar o maior número possível de pessoas.

Pediram-lhe que desse a capa, aproveite para dar também a túnica. Convidaram-lhe para andar uma milha, acompanhe-o por duas. Este é o espírito do Evangelho. Não sobra lugar para mesquinhez, para avareza. A graça sempre nos leva além.

Jesus disse que os fariseus eram tão meticulosos em seu legalismo que davam o dízimo até do tempero usado na cozinha (coentro e hortelã). Mas Ele também diz que nossa justiça deve exceder à dos fariseus. Isso mesmo! Exceder! Ir além das bordas! Isso é o que Paulo chama de superabundante graça.

A promessa feita por Cristo encontra eco nas palavras de Paulo: “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra... A ministração deste serviço, não só supre as necessidades dos santos, mas também transborda em muitas graças, que se dão a Deus” (2 Co.9:8,12).

Não deixe passar despercebido um detalhe importante: o objetivo final de nossas contribuições não é apenas o suprimento das necessidades de alguém, mas as ações de graça que serão dadas a Deus por nossa vida.



Pastor Pedrão é da turma do Genizah!



Pedro Luís Barreto Litwninaidndsisnsoslnczuk, Ufa!!!!! Mais conhecido como Pedrão, carioca, nascido e criado no evangelho, filho de pastor (como levei bronca por isso, corria a beça na igreja...), casado com Marisa a 25 anos e pai de três filhos, Kaka, Nana, e Juninho. Kaka já está casada e Nana caminha a passos largos para a “forca”, Juninho fica ciscando por aí....

Ex-empresário, ex- jogador de vôlei (flamengo, Tijuca, América, seleção carioca), ex- seqüestrado (21 dias no cativeiro), ex participante do NO LIMITE 3 (Rede Globo), ex viciado em Leite condensado. Fui ex em tanta coisa que nem sei direito quem sou, KKKKK.

Sou um apaixonado pela IGREJA DE CRISTO, e não o que se vê por aí. Sem desejo de ter jato particular, Ferrari ou Mercedes, minha paixão é ser pastor de igreja local, hoje a Comunidade Batista do Rio (CBRio). Fundada há seis com 20 pessoas hoje conta com mais de 1.000 membros.

Sou moderno na forma, mas radical na doutrina, não barganho a Palavra de Deus. Amo o ministério, amo minha família, amo a igreja de Cristo da qual sou pastor. Tenho pena de pastores mercenários, ovelhas enganadas e aqueles que se misturam ao povo de Deus para fazer o trabalho do capiroto...



Com o Pastor Pedrão, tive de deixar o coração falar.


Pedrão é o mais novo membro da turma Genizah!

Pedrão foi meu pastor por mais de quatro anos. Que nada! Ele ainda é e será para sempre, meu amigo e pastor!

Tem gente que foi agraciada pelo Senhor com dons e talentos; livramentos e vocações. Por tudo que tenho, e não tenho, dou graças, mas nas minhas orações tento não me esquecer de agradecer e louvar o Amor e a misericórdia do Pai que colocou dois de Seus servos muito especiais em minha vida, cada qual, segundo suas características no momento certo de minha jornada cristã. (1)

Pedrão é aquele pastor amado demais, que o povo da igreja aperta forte no abraço, beija, que nem fazia com o paizão quando criança.

Sempre de bom humor, sempre atento a cada uma das pessoas que o Senhor lhe confiou, o cara vai até a missa de sétimo dia de síndico do prédio de uma ovelha dele.

Pedrão é PRESENTE nas vidas das ovelhas dele e é um PRESENTE de Deus para quem tem esta  oportunidade.

Engraçado até não mais poder, uma voz feita para o cinema, este homem de Deus é tão cristocêntrico que todas as suas enormes qualidades: homilética, carisma, humor, dois metros e tantos de altura e a beleza natural de sua barriga sarada à leite condensado, risos, se passam por coadjuvantes no púlpito.

Pedrão é um pregador fantástico, um dos melhores do país, mas todos os seus talentos e dons são apenas névoa quando o Pedrão se faz Pedrinho e começa a falar do Amor do Senhor e de sua misericórdia.

Pedrão está adiante no púlpito, mas é Jesus que é visto por todo o lugar na CBRIO. Choro, emoção, coração quebrantado diante de Deus. Um louvor total ao único que merece todo o Louvor.

Um breve momento de plenitude. Um intervalo. E aparece Pedrão nos abraçando, nos fazendo rir... Gargalhar mesmo! Enxugam-se as lágrimas, um irmão lhe toca nos braços, e fica no ar aquela alegria dos que servem verdadeiramente a Cristo.

Felizes, olhos úmidos, lágrimas enxugadas... Remidos.

Eu me Lembro de um momento muito especial. Uma de passagem de ano na igreja. A minha primeira e, talvez a última:

Foi uma das experiências mais emocionantes da minha vida. Longe de minha família, acolhido pela família pastoral, ouvi coisas do Pedrão vindas de Deus, na verdade toda a igreja ouviu, e depois os abraços... Chorando aos prantos, quebrantado e ajoelhado orando ao Senhor, sentia que dava um passo grande naquela noite.

Em volta de mim, toda a família do Pedrão orando por este momento. A certa altura, senti a presença do Senhor de forma tão intensa... e, logo um abraço soma-se a tanta emoção e entrega.

Um abraço forte, acolhedor. Não reconheço o corpo, mas o perfume era a memória da minha infância  mais feliz. Me deixo inebriar por alguns momentos, mas logo não resisto à emoção e abro os olhos para ver quem me tocava assim. Não havia ninguém. Eu chamei o Pedrão, contei a ele, choramos mais.

Meus irmãos mais céticos chamem do que quiser...

Já aviso que na CBRIO os cultos são racionais, não tem tremelique, vento de doutrina e nem cai-cai... Apenas abunda muito amor por ali. Muito acolhimento. As Sagradas Escrituras, sem mistura.

Da minha parte, vivo a minha vida na certeza de que naquela noite senti fisicamente o abraço Jesus. Depois daquilo, não tem tempo ruim: Posso apanhar, ser humilhado, passar necessidades, levar pedrada, ser injustiçado, magoado pelos homens, sofrer castigos, ser processado e caluniado. Em todas estas coisas, sou mais do que vencedor, pois o Senhor me fortalece.

Irmãos, eu tive de dividir isto! Não tinha como não fazer! Certas coisas só mesmo deixando o coração falar.  
Falar de Pedrão é uma destas coisas.


Danilo


(1) O outro é Antônio Carlos Costa que me apresentou a Jesus. Meu pastor por 2 anos.



Bendito esquecimento


L. Rogério


Desde quando levantei uma estrela recoberta de papel laminado na ponta de uma varetinha de madeira, vestindo roupinha de anjo e cantando "Glória a Deus nas alturas", tenho uma vaga lembrança do que é guardar textos e recitações. Acredite, é muito comum haver um breve hiato em minha mente durante perguntas do tipo "O que você comeu no café da manhã" ou mesmo "Quantos anos você tem?".

Por algum tempo isso foi motivo para cogitar a ida a algum médico ou psicólogo. No corre-corre da vida essa preocupação se perdeu em meio a tantas agendas, post-its, anotações nas contra-capas de Bíblias ou no enorme quadro-branco que tenho no escritório. Porém, essa preocupação dissipou-se definitivamente quando casei-me com a Dany. A Danex tem um dom. Na verdade, eu já o considero paranormalidade (rs). Minha amada consegue lembrar o que vestíamos no dia do casamento do meu amigo Leandro, qual a sandália que a Juliana foi e que horas saímos e chegamos nesse evento (ocorrido há pelo menos 10 anos). Nem preciso dizer que essa é uma arma poderosa em nossas discussões sobre quem deixou a luz acesa ou o bolo fora da geladeira - é claro que eu sempre perco! (rs)

A falta de memória chegou muitas vezes a me desmotivar por completo quando me vi na lida de compartilhar a Palavra de Deus em tantas igrejas por aí. Escravo do bendito esboço, sempre sonhei o dia em que não precisaria de um púlpito ou suporte para a Bíblia e o impresso. Sofria taquicardias quando o ventilador (maldito) passava as folhas da Bíblia. Me sentia o pior dos cristãos quando precisava recorrer à um versículo do qual não lembrava o endereço, nem o contexto, e muito menos o próprio texto, só sabia que se encaixava perfeitamente naquele ponto da mensagem.

Porém, uma brisa de esperança tem soprado em meu rosto nesses últimos meses. Não! Não tomei fosfosol, nem fui contagiado pelo super-poder da Dany. Pelo contrário, continuo gastando valiosos minutos na impressão de esboços e no desenvolvimento de um design que me lembre apenas o necessário - fagulhas da essência para que meu intelecto desenvolva o restante.

Eis a percepção idiota que me ocorreu. Como alguém que procura os óculos já bem posicionados em seu rosto, percebi que o que eu procurava era o que menos precisava. Entendi que eu não precisava lembrar. Precisava absorver!

Uma mente que decora centenas de versículos, dogmas, regras ou estatutos pode ser uma mente brilhante do ponto de vista secular, mas no Reino de Deus isso não passa de vento. As verdades do evangelho da graça precisam ser absorvidas a tal ponto que eu não lembre de nenhuma delas, e esquecendo-as, passe a vivê-las em sua total intensidade. É como a marcha do carro que mudo sem perceber. Para ser mais poético, é como respirar. Não preciso raciocinar em que velocidade estou, qual a última marcha que coloquei ou mesmo "Onde foi parar essa marcha?". Também não preciso dizer ao pulmão: "Ei, vamos lá! Força! Inspira. Expira. De novo...". Eu simplesmente vivo!

Nesses últimos dias o evangelho tem penetrado a minha pele de tal forma que o perfume me dá uma agradável sensação de liberdade. Fiz da falta de memória minha aliada. Enquanto ela me sufoca, volto a livros que li. Vejo filmes que me emocionaram. Beijo a boca da minha amada, cujo sabor quaso esqueço, mas que prontamente e gentilmente ela me lembra. Bendito esquecimento. Que me traz de volta às raízes. Que me lembra a todo instante: "Você é humano. Tem limitações. E não se esqueça disso!"

PS: Juro que eu ia colocar um versículo para ilustrar essa reflexão, mas ele se perdeu na minha alma.



Publicado em Escola de Adoração e divulgado no Genizah



Breve história do Pastor Jucá

Por Zé Luís

Jucá não era má pessoa.

Atendendo ao chamado, fez seminário como deveria, e logo seu púlpito era um dos mais concorridos, já que ali se pregava de forma raramente genuína. Os outros pastores, apegados a métodos e formas não entendiam como o colega de ministério consegui arrebanhar tantas ovelhas com sua forma tão singela de pregar. Também admiravam-se da sua capacidade de lembrar, não só dos nomes, mas de detalhes da vida das pessoas nas quais pastoreava, suas amadas ovelhas.

Não demorou muito para a liderança de sua denominação, respeitada, invejada e constantemente clonada, convocar o então Pastor Jucá a estar a frente de outros trabalhos, em nome do crescimento da Obra do Senhor: pregava em congressos, conquistando a platéia com sua oratória simples, mas cativante.

Ele falava como qualquer outro, mas os que ouviam entendiam, e repassavam aquela informação, fazendo, as vezes, até os trejeitos e cacoetes: método razoavelmente eficaz.

As ovelhas se multiplicavam em seu aprisco e com o tremendo sucesso do Jucá, fez-se necessário se rodear de assessores melhores (na verdade, ele nunca os teve) e traçar melhores formas de administrar aquela torrente de neófitos em sua congregação.

A denominação trazia seu nome como ícone, e o ícone se atrelava à denominação, num processo que se alimentava mutuamente.

Em pouco tempo tornou-se celebridade no meio: Cds, vídeos, fitas e livros – alguns tão mal escritos quanto esse texto, mas muito bem editorados e “marqueteados”– eram vendidos nas livrarias próprias, ditas evangélicas, consumidos se fossem uma espécie de amuleto, ou leitura obrigatória (embora seus consumidores nunca os lessem).

Um dia, chegaram aos assessores, homens interessados em outra coisa que não fosse a Palavra. Procuravam, de forma quase discreta e nada inocente, utilizar da influência daquele homem, até então, de Deus, para que seus ouvintes, ovelhas que agora mal conhecia (o maldito ativismo imposto era a causa), fossem influenciadas para o propósito que eles tinham.

Eles nada tinha com o Reino, ou mesmo se converteriam a Jesus. Abertamente ofereciam benefícios ao pastor Jucá, que não gostou da conversa. Dispensou o grupo, e continuou seu ministério, sofrendo as dores e as ingratidões.

Foi aí que percebeu: quando se enfurecia ou indignava com injustiças e ingratidões que o Ministério tem, lembrava da oportunidade na qual abrira mão. Pesava, cada vez mais, a comparação entre o que tinha e o que havia recusado.

Foi questão de tempo para que ele cedesse à aquela proposta. Restava então analisar qual das propostas mais se aproximava de suas opiniões pessoais, e quando então viesse, abraçaria-as como se as tivesse aceitas nos dias de seu seminário, quando abraçou a fé a qualquer custo.

Poucos anos depois, Pastor Jucá nada tinha com aquele rapaz do seminário, a brecha aberta trouxe uma legião de outras condições, devidamente barganhadas. Sua retórica já não era mais o mesmo, sua pregação era tão inócua quanto a dos outros pastores, que agora pareciam satisfeitos com a igualdade do colega.

Perto do fim, que não sabia que estava tão próximo, sozinho em sua sala onde assistia TV, chorou. Sua vida havia sido apenas uma vida, apesar do sucesso em certa época, e sentiu muita vontade de ter sido apenas um pastor de ovelhas, sem nome nem brilho. Lembrava da época que tomava café na casa de uma ovelha, que era também seu amigo, a ponto de compartilhar seus pecados e fracassos. Lembrou das orações que fazia por seus inimigos, sem a necessidade de que elas fossem públicas, ou qualquer outra demonstração de piedade a ser reconhecida ou admirada

Ligaria para aquele irmão, se lembrasse o telefone, ou mesmo soubesse para que igreja havia debandado, ou iria na casa da irmãzinha cerrar um pedaço de bolo, se o Senhor não tivesse recolhido, embora ele não pode estar em seu velório: um congresso importantíssimo era inadiável.

De repente, toda sua vida e sua história de sucesso perderam o sentido e ele lembrou daquele amor que o fez abraçar o Evangelho, não com poucas lágrimas, e pensou em um recomeço, no desperdício que foi toda aquela ilusão dos holofotes, e na gratidão de ter vida para se arrepender de tudo que deixara de fazer.

Aquela tarde, chorou copiosamente.

Sua filha, que passou a morar com ele depois que se divorciou de um obreiro de outra denominação, encontrou-o como que dormindo em seu sofá, a TV ainda ligada, onde novelas passavam. Ligou para a ambulância, que nem tentou reanimá-lo.

No domingo, estranhos na igreja em que foi pastor lembravam vagamente do Pastor Jucá, enquanto era velado no salão lateral, entre cochichos e eventuais piadas, que alguém sempre insiste em contar nestas ocasiões.

Resumir vidas assim é triste, mas muitas, entre elas, preciosidades do Reino, se perdem por bem menos que isso.

E seu ministério? Como vai?

Zé Luís é um dos que participam do Genizah, o blog que mais cresce na Blogosfera



Transpirar para não pirar!


Hermes C. Fernandes

Muitos alegam que o Reino de Deus na Terra não passa de uma utopia. Por isso, preferem manter os braços cruzadas à espera do céu. Outros acreditam que basta proclamar a chegada do Reino, e pronto! As coisas vão se ajeitando por si mesmas. Ledo engano! A proclamação deve ser seguida de ação.

Adão recebeu de Deus um mundo paradisíaco, porém, tinha que trabalhar para mantê-lo assim. Nós recebemos uma herança assolada, e temos que arregaçar as mangas, trabalhar e transpirar muito, até que esta herança seja restaurada.

Veja o que o próprio Deus diz por intermédio de Isaías:

“Assim diz o Senhor: No tempo favorável te ouvirei, e no dia da salvação te ajudarei, e te guardarei, e te darei por aliança ao povo, para RESTAURARES A TERRA, e lhe dares em herança as HERDADES ASSOLADAS” (Is.49:8).

Esta passagem fala da missão que o Pai confiou a Jesus, dando-Lhe por aliança ao povo, com a finalidade de restaurar a Terra, não de destruí-la como imaginam alguns. As nações Lhe foram entregues por herança (Sl.2:8), porém, uma herança assolada. Ruínas, nada mais que ruínas. Reergue-las vai custar muito trabalho.

A mesma passagem que diz: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar as boas-novas aos pobres”, também diz que estes mesmos para os quais houver sido pregado o Evangelho “reedificarão as ruínas antigas, e restaurarão os lugares há muito devastados; renovarão as cidades arruinadas, devastadas de geração em geração” (Is.61:1a,4).

A proclamação do Evangelho deve provocar esse tipo de mobilização. As pessoas devem ser constantemente desafiadas a deixarem seu comodismo, e se engajarem na luta pela transformação do mundo.

Tal transformação provavelmente demandará várias gerações. Por isso se diz: “Os que de ti procederem edificarão os lugares antigamente assolados, e levantarás os fundamentos de geração em geração”(Is.58:12a).

Um geração lança os fundamentos, a outra edifica sobre ele. Portanto, cabe a uma geração preparar o caminho para as que virão. Se uma geração abre a estrada, a próxima a pavimenta, e que vem em seguida a sinaliza. Ninguém conseguirá dar conta de tudo sozinho. Um planta, outro rega, porém Deus dá o crescimento.

Deve-se sempre criar uma expectativa em cima do que virá depois, como Jesus fez com os Seus discípulos, ao afirmar que eles fariam obras ainda maiores do que as d’Ele (Jo.14:12).

Se a geração dos pais for sonhadora, a geração dos filhos será visionária. É sobre isso que profetiza Joel: “E depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões” (Joel 2:28). Os pais sonham, os filhos vêem. Os pais arquitetam, os filhos edificam.

Imaginar que podemos consertar o mundo em nossa geração é uma utopia. Por isso muitos se desanimam de lutar, e preferem deixar as coisas como estão, conformando-se a elas, em vez de trabalhar por sua transformação.

Alguns acham que a transformação do mundo é trabalho exclusivo de Deus. Esquecem-se de que “somos cooperadores de Deus” (1 Co.3:9).

Outros usam a doutrina da graça como desculpa e justificativa para sua inércia e ociosidade. A graça nos inspira a transpirar. Sem a inspiração da graça, nossa transpiração será em vão. E sem a disposição para transpirar, estaremos recebendo a graça de Deus em vão.

Eis a exortação apostólica:

“E nós, cooperando com ele, também vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão” (2 Co.6:1).

Quem disse isso tinha moral para cobrar de seus companheiros de jornada. Em outra passagem, Paulo dá testemunho: “...a sua graça para comigo não foi vã. Antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo” (1 Co.15:10).

Receber a graça em vão é ser inspirado por ela, mas não se dispor a transpirar. Há uma herança assolada a ser restaurada. Uma sociedade em frangalhos a ser transformada. Quem se dispõe a colocar a mão na massa?

Não basta tomar a iniciativa; nadar, nadar, e morrer na praia. Mesmo que os resultados que esperamos não venham em nossos dias, eles certamente virão, se tão somente não desfalecermos. É o mesmo apóstolo quem nos garante: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1 Co.15:58). E em outra passagem, ele complementa: “E não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” (Gl.6:9).

Se não formos nós a colhermos, os que vierem depois colherão os resultados de nosso árduo trabalho. E assim, deixaremos para os nossos filhos um mundo melhor do que o que recebemos de nossos pais.

Acompanhe a continuação desta série ao longo da semana.



A luta entre o bem e o mau (e não é um erro de português!)

Bráulia Inês Ribeiro


"Se existe uma arena no universo, quem está lutando nela somos nós e o diabo, o rebelde contumaz que faz da guerra contra nós seu libelo contra Deus”

A língua forma a cultura. A língua decide como vamos pensar a respeito de um conceito ou, em outras palavras, como vamos internalizar um valor. Cada língua do mundo, ou grupo de línguas, explica a realidade à sua maneira. A língua forma a cosmovisão de um povo – tal cosmovisão, portanto, circunscreve-se dentro dos limites conceituais impostos pela língua. Até os cientistas da física moderna perceberam que chegaram a um limite em relação ao que conseguiam explicar e perceber dentro de sua cosmovisão. Fritjof Capra recorreu à religião taoísta chinesa para tentar explicar o que a ciência constatava. Isso pode parecer absurdo para alguns, mas para os etnolingüistas familiarizados com a diversidade de pensamentos e a multiplicidade de conceituação multilingüística, é apenas o passo natural que temos que dar na busca do conhecimento.

Até a ética da sociedade atual é afetada pelas mudanças lingüísticas, algumas “encomendadas” para refletir uma ambigüidade que não existe. Por exemplo, bebês no útero começaram a ser chamados de fetos, e agora apenas de tecidos, em inglês – tissue. Tal nomenclatura diminui o impacto provocado por sua morte pelo aborto, mesmo no final da gravidez, ou de usar live-tissues nos avanços da medicina, chegando ao cúmulo de considerar legal o assassinato com uma tesoura na nuca do bebê que já tem o corpo fora do útero, mas a cabeça dentro. Legalmente ele ainda é um tissue.

A língua também afeta nossa teologia. Recentemente, pensei numa mudança lingüística que pode nos revelar uma verdade que se oculta da maioria por causa da língua. Elimanaremos do dicionário o termo “mal”, escrito assim, com “l”. Na nossa cosmovisão indo-européia – no tempo que todas as línguas ocidentais modernas eram uma só –, o bem e o mal se opunham em igualdade de forças. Essa era a visão pagã de nossos antepassados e que os filósofos chamam de maniqueísmo. O grande Bem e o grande Mal lutando entre si; Deus e o diabo em pé de igualdade, lutando pelo poder sobre o mundo criado.

O Cristianismo é freqüentemente caracterizado como uma religião maniqueísta, e muitas vezes, na nossa vida, nos ensinos, até na oração, refletimos esse pensamento. Combatemos um mal onipresente, obcecados com o embate metafísico; às vezes perdemos, às vezes ganhamos. Combatemos pessoas, coisas, enfim, a cultura, como se elas fossem o mal materializado. Existe a batalha na Bíblia, mas é muito diferente. O bem e o mal não são forças paralelas e não são iguais de maneira alguma. Aliás, o mal com “l” nem existe. Não existe um mal conceitual, abstrato, transcendente – o único “mal” presente na terra dos homens é o mau como qualificação de ação, e não o mal substantivo.

A oposição existe entre Deus, a pessoa de amor, tudo o que diz respeito e ele, e a rebeldia. O pecado, exercido, praticado, pelos homens ou pelo diabo, é o que se opõe a Deus. Se existe uma arena no universo, quem está lutando nela somos nós e o diabo, o rebelde contumaz que faz da guerra contra nós seu libelo contra Deus.

O mal existe na medida em que nós o criamos. Ele nos cerca porque nós o produzimos. As trevas, se caminhamos nelas, são auto-produzidas; o diabo nos tenta, nos perturba e oprime, mas só tem espaço quando nós, em nossa rebeldia contra Deus, o convidamos. Podemos nos tornar maus por praticarmos habitualmente o mal, até que essas fibras de rebeldia sejam tecidas na nossa personalidade. Mas, enquanto vivermos, será o mau, nunca o “mal” absoluto, contra o qual lutaremos porque ainda seremos passíveis de redenção. O mal não é independente do bem – mal é a negação do bem. O “mal” é a ausência de Deus. A desobediência é o pecado principal dos seres criados. A explicação da cruz não é o bem vencendo o “mal”, mas é o amor de Deus, pagando o preço pelo mau – as nossas más escolhas.

Não posso deixar de pensar que, se vivêssemos o Cristianismo do bem e do mau, seríamos mais responsáveis. Amaríamos mais, obedeceríamos mais, nos esforçaríamos mais por retribuir com bem àquele que nos amou, mesmo sendo maus. Não posso deixar de olhar para o Brasil de hoje, um país de canalhice institucionalizada, de amoralidade sem compromisso social, do malazartismo absoluto, e pensar que, por mais que eu não queira admitir, a culpa disso tudo não deixa de ser minha também.


Bráulia Inês Ribeiro é a mais nova colaboradora do Genizah, pois subversiva ela já é desde criança! 
Bráulia também tem um blog na Revista Ultimato: Conheça! 




Deixei de ser evangélico...

Marcelo Lemos

Sem o menor sentimento de culpa admito que me tem sido coisa rara a afirmação "sou evangélico". Nem sempre foi assim. Houve tempos, já escondidos pela névoa do tempo, nos quais eu sentiria santo orgulho de tal identificação: que saudades! O tempo não para, dizia o poeta. E o tempo passou, sem muita poesia, assassinando poetas, e consagrando, quase sempre, gente cuja poesia maior é dedicada a ídolos. Nos esquecemos da primeira regra do Decálogo: adoramos personalidades, a nós mesmos, o sucesso, o dinheiro, o poder, os títulos eclesiásticos... Diante de Deus, nós, e nossos muitos deuses.

Recentemente questionaram qual minha opinão sobre o Padre Fábio de Melo, o cabeleira de gel, sem batina, que vive dizendo que tudo é "liiiiindo!", ter dito: "Eu também sou Evangélico!". Não deixa de ser uma declaração bonita e, quiçá, fruto de algum amadurecimento proporcionado em tempos pós Vaticano II. Tudo muito "liiiiiiindo!". Admitamos, por mais anti-catolicos sejamos, nada é tão prazeiroso que ouvir um padre reconhecendo que a salvação é por Graça, e que nossa missão principal é anunciar o Evangelho de Cristo. No entanto, creio que o padre precisa dar uma atualizada na cabeleira, já que a idéia que ele tem sobre o que é ser "evangélico" está defasada há, no mínimo, uma década e meia! Atualmente, ser evangélico pode significar qualquer coisa, o que nos leva a significado nenhum. Eis o grande mal dos evangélicos de nosso tempo: crise de identidade. A única coisa que o evangélico mediano parece saber sobre si mesmo, via de regra, inclui: que sua denominação é, em algum sentido, melhor; que ele é filho da promessa; que ele tem o selo da promessa, e que apesar de não ser dono do mundo, é filho do Dono! Não é "liiiiindo, minha gente"?

Assim, minha primeira razão para deixar de ser evangélico está no fato de que essa gente, os evangélicos, não sabe o que ser evangélico significa. Pergunte a maioria de seus amigos evangélicos: o que é o evangelicalismo? Qual sua origem? Quais seus postulados? Faça um teste, e comprove: quase absoluta ignorância. Somos uma geração que nada sabe sobre os Grandes Depertamentos, ou sobre nomes consagrados de nossa tradição evangélica, como Jonathan Edwards, John Wesley, Charles Finney, Dwigth L. Moody, etc. Nem mesmo o contemporâneo Billy Granham escapa imune a nossa ignorância crônica. Aliás, o Billy só volta ao imaginário dos "gospi" quando algum aloprado escatólogico faz malabarismo para associá-lo a sociedades secretas, e a complôs promotores do Anticristo... Em contrapartida, sabemos tudo sobre espiritos territóriais, ex-satanistas, ex-noivas-do-Capeta, símbolos satanistas ocultos, pregadores-sem-língua, maldições hereditárias, e, claro, campanhas de Sementes, com Bíblias superfaturadas.

Por falar em Bíblia, eis minha segunda razão para deixar de ser evangélico: somos um povo ignorante das Escrituras, e da Teologia! Não só isso, além de ignorantes, temos orgulho do fato! Dia após dia, cresce a idéia de que um cristianismo realmente bíblico, que segue o modelo da Igreja Primitiva, é um cristianismo anti-intelectual. Canonizamos a ignorãncia. Tal blasfêmia sempre esteve presente, com honrosas excessões, na religiosidade pentecostal (de onde eu venho), mas não é privilêgio apenas daquele grupo, infelizmente. Mas, como pentecostal de berço, vou me ater ao que diz respeito a minha experiência mais imediata. "Igreja do Senhor!" - esbraveja o falastrão: "eu tinha um sermão prontindo para vocês esta noite; porém, quando eu chegei neste lugar, o Espírito Santo mudou tudo – fez aquele rebuliço! Por isso, quero lhes dizer que tenho uma mensagem vinda diretamente do céu para vocês! Hoje, eu não quero nada com Teologia: Deus vai falar diretamente com você!”.

Só tem um nome para isso: apologia da burrice. Atitude que não encontra nenhum paralelo no exemplo deixado por Jesus Cristo: "E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que deles se achava em todas as Escrituras” (Lucas 24.27).Que ousadia têm aqueles pregadores e cristãos que desprezam o saber teológico, preferindo em seu lugar qualquer outra coisa, como experiencias e emoções! Eles se acham melhores que Cristo? Eles se consideram mais eficazes que o próprio Senhor, a quem dizem servir e amar? Do contrário, não é certo que deveriam seguir Seu exemplo? Como se atrevem a desprezar aquilo que Seu Deus valorizou?

Intimamente relacionado ao que foi dito acima, identifico minha terceira razão para deixar de ser evangélico. Aqui, um boa dose de cautela, pois estarei pisando em terreno perigoso. Inicio meu argumento com uma exemplificação: que dirá um cristão evangélico contra um cristão católico que, por exemplo, acredita em Purgatório? Resposa bem fácil: "A Bíblia não fala nada sobre um Purgatório, meu filho, acorda!". De fato, e não falando, os evangélicos se recusam a se submterem a um dogma extra-bíblico. Sabem o motivo? É que um dos pilares do Evangelicalismo vem direto da Reforma Protestante: o sola scriptura, segundo o qual, nada do que não esteja explicitamente ensinado nas Escrituras possa ser imposto aos crentes. Mas, ironicamente, aqui nasce um problema para os evangélicos de nossos dias: quando se trata de passar suas próprias tradições e práticas pelo crivo das mesmas Escrituras, ele rapidamente se saírão com a excusa de "não julgueis para não serdes julgados", ou qualquer imbecilidade como "cuidado, o cara é ungido Senhor; e não se deve tocar nos ungidos". Santa hipocrisia!

Ainda sobre isto há mais a se dizer: não apenas usamos o Sola Scriptura na balança da hipocrisia, como também o elevamos a um status de ídolo cego e manco. Calvino? Wesley? Spurgeon? Agostinho? Cramer? Confisões de Fé? Livros de Oração Comum? Não precisamos de nada, nem de ninguém, só das Escrituras! Conseguem perceber o desvirtuamento, a falsidade insinuante? Inventamos a idéia de que ter a Bíblia como regra suprema de fé implica na rejeição do que Deus, por Seu Espírito, fez durante séculos de cristianismo! Porém, se alguém ousar questionar o desatino anti-biblico de algum apóstolo moderno, temos resposta rápida e eficaz: "Cuidado com a Letra, abra seu coração para o mover do Espírito!". Nada mais nos interessa, ao menos, nada que tenha acontecido antes do nosso profeta, apóstolo ou bispa preferidos.

Admito, meus queridos, que há gente na Igreja Brasileira que ainda faz jus ao título "evangélico". É possível que os mesmos sintam-se injustiçados com minhas generalizações. Me solidarizo, acreditem. Infelizmente, por mais triste que seja, o termo evangelico perdeu seu valor, não por si mesmo, mas pelo mau cheiro de quem não lhe soube extrair o perfume. E, cá entre nós, nada mais eficaz para despetar um moribundo que uma boa descarga eletrica no peito: ou acorda, ou bate as botas de vez!

De modo que, tomo a liberdade de me definir como "um cristão, a favor do Evangelho, mesmo que precise ir contra os evangélicos". Peraí! Acho que isso é bem Evangélico, com E maiúsculo, não acham?


Marcelo Lemos é mais um desviado que resolveu ser subversivo do Reino e caiu aqui no Genizah



Marcelo Lemos é o mais novo membro da quadrilha Genizah!

Marcelo Lemos, o mais novo subversivo do Genizah!
Um Desviado!

Claro, não é assim que eu me definiria, ao menos, não de forma voluntária, né? 

Todavia, algumas forças exteriores me forçam a tal definição e, provavelmente, estejam certas. Certas em certo sentido apenas. Explico. Tendo sido criado como um pequeno xiita pentecostal, para quem tvs, musicas, esportes, jeans e até outras denominações cristãs eram obra do Encardido, eu logo me tornaria um traidor da causa, ainda na adolescencia. Desviei-me. O primeiro a me chamar de desviado foi meu pai, hoje, felizmente, um grande "fã" meu (ufa!)... Depois, foi a vez dos pais dos meus 'coleguinhas', os professores de Ebd, e por ai afora! Como eu ia dizendo, para alguns, tranformei-me num infiel. Ontem, meus maiores atritos se davam com o Legalismo Religioso, especialmente no meio pentecostal; hoje, há um novo campo de batalha, que de 'novo', saibam, tem apenas o figurino e os atores, mas cujo roteiro sinistro é mais antigo que o mais velho dos Hitchcocks.

Mas, caros amigos, a 'culpa' é da Graça. Lembram-se do velho comercial "red bul te dá asas"? Meu energético é a Graça! Hoje, olho para trás tentando entender como me tornei um defensor da Simplicidade do Evangelho e, confesso, não encontro qualquer mérito pessoal. De fato, eu tive tudo para me tornar eterno escravo e reprodutor de agrilhões. Minhas asas me foram doadas, pela Graça. De tão fascinado pela Graça, reformei-me, li as Institutas de Calvino, e o Arbitrio servo de Lutero. De tão fascinado pela Graça, recriei-me, ou melhor, fui recriado, pela Graça: um novo cristão, um novo discípulo, que nunca chega ao que deve ser, e por isso, é moldado, dia após dia, ainda que em meio a alguns eventuais retrocessos (risos). De tão fascinado pela Graça, que é Soberana e Invencível, converti-me num otimista inveterado, no retrô estilo pós-milenista (pasmem!), apesar das mazelas que afligem a Igreja de nossos dias - sim, me alio a quadrilha dos subversívos que denunciam os lobos de nossa era, todavia, creio que há médico em Gileade, de modo que até o mais terrível dos nossos desafetos pode vir a ser 'infectado' pelo sabor da Graça.

Minha linda esposa, Meire, as vezes diz que sou um cara dado a ironias - o que a deixa furiosa, quando sente que exagero (quem não tem pecado atire...). Mas, apesar de algumas 'tiradas' divertidas que me acometem aqui e ali, sou um cara quase fatalmente introverdido, tímido, sem muitos dotes. Aliás, por falar em dotes, se existe o dom de Eremita, é meu! Não gosto de telefones, celulares, cameras, nem de Msn... Só que no meu caso, acreditem, não é por penitência, mas sim, por falta de jeito com a coisa. O único lugar no qual, com a Graça de Deus, a timidez me dá um pouco de folga, é no Púlpito; apesar das pernas perderem metade das forças lá em cima. Ironia das ironias, os amigos me consideram um bom professor de Homilética. E Meire, que não gosta de ironias, vive dizendo que sou o melhor dos pregadores (te amo, linda!). Amigos são pra essas coisas...

Minha grande paixão na vida é a Leitura, e muito dessa paixão devo a minha Mãe, Helena, que desde pequeno me incentivava a ler (apesar de, num 'belo dia', obedecendo as ordens do Pastor, ter resolvido botar fogo na minha coleção de Gibis!). Paixão que desejo transmitir a meus dois filhos, Yago e Yuri, e que tenho tentado transmitir também àqueles que estão, ou já estiveram, sob meus cuidados pastorais. Acredito que uma pessoa que lê, "vale mais", em todos os sentidos, inclusive na vida cristã.

Bem, desviado mesmo é a vovozinha! Sou é subversivo! Isto aprendi com a turma do Genizah: que alívio de consciência, não ser mais desviado! Aliás, de Genizah, no início, gostei pouco, na impressão de que era apenas um grupo de pentelhos criadores de caso. Enganei-me, filiei-me, compliquei-me, aliciei-me! Tremam vendilhões do templo, tremam habitantes das modernas sinagogas de Satanás: a unção do chicote ungido vai abalar o seu cri$tiani$mo! Posso ouvir um "amém"?





O Evangelho Transgressor


Hermes C. Fernandes

Já houve inúmeras tentativas de encaixar a mensagem do Evangelho dentro de um pacote ideológico, ou mesmo de identificá-la como uma filosofia. Mas dado o seu caráter subversivo, o Evangelho é transgressor por natureza. Ele não se submete às regras. Ele é livre, rebelde, e por isso, alvo de tantas contradições.

É perda de tempo tentar sistematizá-lo, dissecá-lo, ou expô-lo como uma receita de bolo. A Boa Nova do Reino sempre nos surpreende, indo além de qualquer definição.

Nesta série de reflexões, vamos buscar compreender o escopo do Evangelho através de sete palavras iniciadas com o prefixo TRANS.

Oriundo do latim, o prefixo “trans” significa “ir além”, ultrapassar os limites pré-estabelecidos.

Transmitir – Ir além de nós mesmos

Uma notícia que se preze tem que correr o mundo. Quanto mais quando se trata da mais relevante notícia.

O Evangelho é, por definição, uma notícia, mas não uma notícia qualquer. Ele é uma ótima notícia. É a partir da transmissão desta notícia que a ordem é subvertida, e o Reino de Deus é estabelecido entre os homens.

Que grande privilégio nos foi concedido! Deus poderia ter confiado aos anjos a nobre missão de transmitir tal notícia. Em vez disso, preferiu correr todos os riscos, comissionando os homens.

Diz-se que quem conta um conto, acrescenta um ponto. Quem já brincou de telefone sem fio sabe muito bem disso. O recado dado pelo professor no pé-do-ouvido do aluno, ao ser retransmitido de aluno em aluno, vai se alterando, de forma que, ao chegar ao último aluno, seu conteúdo estará totalmente comprometido, não parecendo em nada com o que o professor disse ao primeiro portador.

Como garantir que a notícia não se corrompa na medida em que é retransmitida? Como manter seu conteúdo inalterável?

Paulo nos dá a fórmula:

“E o que de mim, através de muitas testemunhas ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (2 Tm. 2:2).

Está patente neste texto que a preocupação de Paulo é manter o conteúdo da mensagem inalterável. Em outra passagem ele diz: “O que eu recebi do Senhor, isso também vos entreguei” (1 Co.11:23a). Portanto, sua parte estava garantida. Restava agora garantir que os que a receberam, retransmitissem-na com total fidelidade.

Quais as precauções que Paulo tomou? Primeiro, o que ele dizia era sempre na frente de muitas testemunhas. Ele seguia radicalmente a instrução dada por Jesus aos Seus discípulos, de que o que houvessem ouvido dentro da casa, anunciassem de cima do telhado. Portanto, o anúncio do Evangelho deve ser feito publicamente, para que seu conteúdo seja protegido. Aquilo que se diz ao pé-do-ouvido, num lugar secreto, separado de todos, pode ser facilmente adulterado quando for retransmitido, sem que ninguém se dê conta. Ma se é dito abertamente, às claras, quem retransmiti-lo terá que fazer com precisão, para não ser confrontado.

Eis uma das diferenças básicas entre o Evangelho e as religiões de mistério que circulavam largamente nos dias da igreja primitiva. Tais religiões eram cheias de segredos, senhas, reuniões secretas em lugares separados, jargões que só eram conhecidos pelos iniciados, cerimônias misteriosas, e etc. O Evangelho vem na contramão disso tudo.

Nele, o mistério é revelado. O que foi sussurrado, deve ser proclamado em alto e bom som.

Segundo, Paulo pede que Timóteo seja seletivo na escolha daqueles que serão responsáveis pela retransmissão da mensagem. Todos podem ouvir. Mas nem todos estão aptos a retransmitir. Somente o que demonstrarem fidelidade à toda prova.

Quase dois mil anos se passaram, e apesar de todas as tentativas de se corromper o Evangelho, ele se mantém intacto. Basta que as pessoas se dêem o trabalho de comparar o que está sendo pregado, com o que está registrado nas Escrituras, contando sempre com o discernimento dado pelo Espírito Santo.

As pessoas só compram gato por lebre, porque são intelectualmente preguiçosas. Não querem conferir, como fizeram os crentes bereianos. Pra quem gosta de ser enganado, esse pseudo-evangelho que tem sido apregoado em nossos dias é um prato cheio.

Que tenhamos o mesmo propósito e compromisso dos cristãos primitivos em comunicar fielmente o que receberam do Senhor.

"O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco" (1 Jo.1:3a).

Nada de revelações extras! Nada de acréscimos, numa tentativa de enfeitar o pavão. E se um anjo do céu se meter a besta, trazendo-nos uma revelação suplementar, que seja maldito, conforme diz Paulo aos Gálatas (1:8).

O futuro do mundo depende da transmissão fiel do que temos recebido do Senhor. As próximas gerações nos agradecerão.

Acompanhe nossas reflexões ao longo da semana.



Hermes Fernandes é um dos mentores desta subversão aqui no Genizah