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Passando por aquele inferno... Depressão

Digão

 
Chico Buarque, no auge da ditadura militar no Brasil, escreveu uma linda música: O que será, falando sobre a paranóia daqueles tempos bicudos. Lá no final da letra, Chico escreve com maestria: E mesmo padre eterno / Que nunca foi lá / Olhando aquele inferno / Vai abençoar! / O que não tem governo / Nem nunca terá! / O que não tem vergonha / Nem nunca terá! / O que não tem juízo...

Apesar de estar falando sobre um momento específico na história do Brasil, a letra de Chico me salta aos olhos por outro problema. Neste trecho, parece desnudar um problema que muita gente no mundo, inclusive eu, enfrentamos: o problema da depressão.

Infelizmente não se achou uma cura efetiva para este mal. Aliás, nem sei como andam as pesquisas a respeito. Sei que no meio secular esta questão está sendo tratada com muito mais atenção e carinho que no meio cristão.
Para quem nunca teve esta experiência, descrevê-la se torna um pouco inglório. Para ilustrar, a depressão é como um bicho que vai roendo o corpo por dentro, a partir das entranhas e da mente. Com sua saliva ácida, vai corroendo a mente e o corpo da pessoa, até que não reste muita coisa daquilo que Deus originalmente projetou. 




Ou seja, aos poucos, a pessoa vai se zumbificando. A vida se torna um fardo. O fato de saber que vai levantar no outro dia torna o sono algo ruim. 

Para piorar, somos mestres em jogar mais carga nos ombros de quem sofre de depressão. Damos sempre aquelas desculpas esfarrapadas para disfarçar nossa indiferença e individualismo com um manto de falsa santidade. Aconselha-se ler mais a Bíblia, orar mais, jejuar mais, até dizimar mais! Isso quando não se parte para a possessão demoníaca pura e simples!

Mas o que muita gente não sabe é que a própria igreja evangélica é fator gerador de muitos casos de depressão. O contraste entre aquilo que a Bíblia ensina e a prática eclesiástica é abissal. Pesquisas indicam que 47,5% dos pastores, padres e ministros sofrem de alguma doença psicológica, incluindo a depressão. Isso quando não se parte logo para o suicídio, gerado pela iniqüidade institucionalizada da igreja evangélica.

Enquanto produzia este texto, fui acometido de uma forte crise depressiva. Nesta crise, a fé se esfarelou, a visão de futuro sumiu, a esperança deixou de existir. Não fosse a pronta atuação de minha esposa, eu teria me matado. Ainda estou lidando com os cacos, mas a nuvem negra sobre minha cabeça já começou a dissipar, e consigo ver já alguma coisa à frente. A fé ainda está bem machucada, mas espero que venha a se recuperar plenamente.

Aquele inferno do Chico Buarque era, certamente, as entranhas do governo militar dos anos 70. Mas aquele inferno de muita gente, em vez disso, é sua permanente angústia e desassossego. É aquele inferno que carrego. Não tem demônios, mas tem a psique entortada; não há fogo e enxofre literal, mas uma perene tormenta interna.

Entretanto, quando me volto à Palavra, fico mais aliviado. Ali vejo gente boa que passou a mesma coisa que eu. Elias quis morrer (1 Rs 19.4). Jeremias se achou um lixo (não passo de uma criança, disse ele em resposta ao chamado de Deus – Jr 1.6). Jó amaldiçoou a notícia de seu nascimento (Jó 3.3). Timóteo, jovem pastor da igreja de Éfeso, ficou paralisado com a depressão (2 Tm 1.4-7). Jesus chegou a afirmar que estava triste como a morte (Mt 26.37, 38).

Portanto, meu sentimento de inadequação para a vida e para o ministério foi partilhado por bastante gente antes de mim, e agora mesmo continua partilhado por outro punhado de gente. Mas sempre procuro me lembrar que aquele inferno recebeu a visita do padre eterno, ao contrário da música do Chico. E Ele nos lembra que está conosco, até mesmo nas profundezas mais extremas da alma (Sl 139.8). Enfim, quando passo por aquele inferno, procuro me lembrar que Jesus é não chamado de Emanuel (Mt 1.23) à toa. Ele é Deus comigo.

Digão expõe sua alma aqui no Genizah.
Vida prática 6132106087854079863

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