Tá quente... tá frio...



Hermes C. Fernandes



Quem nunca brincou de “tá quente-tá frio”? Se não está ligando o nome à brincadeira, deixe-me explicar: trata-se daquele jogo infantil em que a criança tem seus olhos vendados, e tenta encontrar algo através do tato, enquanto as outras crianças dizem “está quente” ou “está frio” de acordo com a proximidade da coisa que se almeja achar. A graça da brincadeira é dizer que tá quente, quando na verdade tá frio. O problema é que ninguém se segura, e acaba caindo na gargalhada, revelando assim o embuste.

Penso que isso sirva de analogia para a relação entre a igreja e a cultura. Como cristãos, cremos que tivemos nossos olhos desvendados, e fomos arrebatados do império das trevas para o reino da luz. Porém, o mundo ao nosso redor segue mergulhado na escuridão. Devo esclarecer que não me refiro aos cristãos nominais, cegos em sua presunção religiosa, mas àqueles que, de fato, foram encontrados e transformados pelo amor que emana de Deus, e que personalizou-se na figura histórica do Nazareno.

Como cristãos, não podemos fazer vistas grossas ao que acontece à nossa volta. As Escrituras dizem que as nações andariam à nossa luz. Compete-nos, portanto, ajudar àqueles cujas vistas parecem estar ainda vendadas.

É claro que entre os ‘vendados’, há os que estão ‘quentes’ e os que estão ‘frios’ em sua busca. Isso pode ser facilmente percebido através de expressões culturais, seja na música, na poesia, na dramaturgia, nas artes plásticas, e até na ciência. Como também pode ser percebido na práxis adotada por cada um.

Em seu discurso no Areópago de Atenas, Paulo resume a verdade bíblica magistralmente. Ele afirma, sem medo de errar, que o Deus desconhecido a quem eles dedicaram um altar, é o Criador do Mundo e de tudo quanto existia, e que não carece de ser servido por mãos humanas. Também diz que ele mesmo havia estabelecido as nações, ordenando de antemão quais seriam seus limites geográficos e históricos. Segundo o apóstolo dos gentios, “Deus fez isto para que o buscassem, e talvez, tateando, o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós” (At.17:27).

Após esta contundente declaração, Paulo cita os poetas/filósofos gregos: “Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos. Como também alguns dos vossos poetas disseram: Somos também sua geração” (v.28). Seria como se um pregador de nossos dias resolvesse citar um autor secular famoso em um de seus sermões. Quem bom que Paulo não estava se dirigindo a crentes legalistas de nosso tempo, se não, estaria se metendo numa encrenca das boas.

Em outras palavras, era como se o apóstolo dissesse: Está quente! Vocês não estão longe d’Ele. Estão chegando cada vez mais perto. Mas estou aqui para desvendar seus olhos para que finalmente vocês O encontrem.

Se fossem alguns pregadores de hoje, aquele altar teria sido derrubado num verdadeiro show de exorcismo e desrespeito à crença alheia. É difícil falar disso e não lembrar do episódio em que o bispo da igreja universal chutou a imagem de uma santa católica em pleno programa de TV. O que teria feito Paulo numa situação daquela? Teria xingado a imagem? Creio que não. Em vez disso, teria dito: Maria, a mãe do Salvador, por quem vocês têm tamanho respeito e devoção, foi quem disse acerca de seu Filho: Fazei tudo quanto Ele mandar. E por aí, Paulo conquistaria o coração até do mais fervoroso devoto mariano.

Imagine um pregador de hoje ter a ousadia de citar Chico Xavier para anunciar as boas novas aos espíritas? Ou ainda: que tal citar Maomé para introduzir a mensagem de Cristo aos muçulmanos? Ousado, não?

Mas a gente prefere gritar: Tá frio! Vocês estão completamente errados em sua fé! Chico Xavier era apenas um embuste! Maomé era um falso profeta! Buda não passava de um glutão safado!

E o pior é que com esta postura, estamos cada vez mais afastados daqueles que realmente necessitam conhecer a Luz do Mundo. E enquanto atacamos os que julgamos estar frios, nós estamos nos amornando, como a igreja dos laodicenses. Achamo-nos tão perto, e não percebemos o quanto estamos nos distanciando da verdade, na mesma medida em que nos distanciamos do amor. Tão perto, mas tão distante. Bom seria se déssemos ouvidos à advertência de Jesus à igreja de Laodicéia: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem qunte, vomitar-te-ei da minha boca. Dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta. Mas não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu.  Aconselho-te que de mim compres ouro refinado no fogo, para que te enriqueças; e vestes brancas para que te vistas, e não seja manifesta a vergonha da tua nudez; e colírio, para ungires os teus olhos, a fim de que vejas” (Ap.3:15-18).

Bem que podiam ter dormido sem esta! Não se enganem. A carapuça cabe em nossas cabeças. Achamo-nos tão ricos, que jamais aceitaríamos que a cultura ao nosso redor tivesse qualquer contribuição a dar. Fechamo-nos hermeticamente em nosso mundinho gospel, a ponto de deixarmos de fora o próprio Jesus, que insistentemente bate à porta, conclamando-nos a cear com Ele. Aliás, Jesus toma a realidade social e cultural da cidade Laodicéia como analogia do estado espiritual em que aquela igreja estava. O colírio, por exemplo, era produto daquela região. Eis o exemplo de uma espiritualidade engajada com a realidade, aberta ao diálogo respeitoso, sem contudo, abrir mão da verdade do Evangelho.

Penso que nosso maior problema é com a presunção. Somos os santos, os eleitos, os sabichões, e que, ainda por cima, têm que aturar este monte de gente pecadora. Cabe aqui a reflexão certeira de Tomás de Aquino: “A santidade não consiste em saber muito, meditar muito, pensar muito. O grande mistério da santidade é amar muito." Tenho a impressão de que muitos cristãos contemporâneos estão entre aqueles para quem Paulo declara: “Confias que és guia dos cegos, luz dos que estão trevas, instruidor dos nécios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo?”(Rm.2:19-21a).

Que tal se mirássemos nossas críticas mais ferrenhas em nossa própria direção, e olhássemos com mais amor e compaixão aqueles que nos rodeiam?


Hermes Fernandes é também culpado do que se faz aqui no Genizah

7 Comentários

Amarildo Rocha disse...

É aquela velha história de não aceitar o pecado, mais amar o pecador (até porque nós também o somos), quem ama não ridiculariza.
Ridicularizar a crença de uma pessoa, é uma das maneiras mais faceis de afastá-la.
NEle:
Amarildo.

Sempre Senhor Jesus disse...

Olá, estou passando para agradecer a visita em meu humilde blog http://sempresenhorjesus.blogspot.com/
e estou seguindo , esse blog, de vez em quando precisamos rir... um abraço

Marcello Comuna disse...

Tô ligado...esses dias vc postou um artigo sobre nenhuma arte ser profana e recebeu duras críticas de alguns legalistas...hoje esse novo post soa como uma refutação.

Admirei a primeira postagem e ainda mais essa.

Como rapper, que viveu 11 anos ativamente no meio secular, entre poetas, artistas, músicos e militantes políticos e há quatro anos caminhando no meio do povo "gospel", posso afirmar com propriedade: A maioria dos amados irmãos em Cristo Jesus estão mais frios que um iceberg!

Um dos maiores problemas que obtive no convívio com os amados irmãos, foi a falta de assunto extra bíblico, extra congregacional. Simplesmente não há uma busca por cultura, e penso que a liderança tem grande culpa nisso. Não há estímulo as ovelhas a serem cultas, informadas do mundo ao seu redor.

Sou um evangelista, faço minha música para os que estão no mundo. Mas se esse não fosse meu desejo seria um homem frustrado, pois não existe espaço no cenário "gospel" para diversidades, para um som multiforme como o meu, uma mistura de eletrônico com rap, com bossa nova, com rock, enfim...

Se quiser conferir o barulho, segue o link.

http://www.myspace.com/marcellocomuna

Jah blesses!!!

Comuna.

Anônimo disse...

Caras, td bem com vcs? Tô estranhando o silêncio de vcs com relação a "Nosso Lar, o filme"

http://www.nossolarofilme.com.br/

Abraços.

Luis Henrique disse...

Eu penso que começar um discurso com "Andei pela cidade de vocês e vi que vocês são muito supersticiosos [tradução possível]" - depois de olhar templos e altares tão valiosos para aqueles homens - ainda afirmar "O Deus que criou todas as coisas nunca precisou disso, ele não é servido pelas mãos dos homens", não está muito claro pra mim que a intenção era ser agradável.

O ponto de contato cultural da passagem é obvio, mas não percebo Paulo como tentando compatibilizar ou equiparar a Verdade que ele que ele possuía com a 'verdade' daqueles gregos. Parece exatamente o contrário, o desejo de confrontar usando as próprias bases deles. Isso inclusive nos versículos 27 e 28.

Quando ele cita os poetas gregos, vale lembrar que eles não eram apenas homens de conhecimento, mas eram também pagãos e dos bons. Epimênides, que Paulo cita em outra epístola, é um bom exemplo disso. Mas, o contexto demonstra que ele faz isso para enfatizar a Verdade daquilo que diz e também inegavelmente confrontar.

No restante da passagem ele chama aqueles homens de "profundo conhecimento religioso" de ignorantes, ordena que se arrependam e anuncia o juízo de Cristo (v. 30,31).

O ponto em que eu quero chegar é apenas que, eu posso citar Edir Macedo em alguma pregação cristã, mas no final das contas deve ficar evidente que ele não é cristão.

Assim como eu posso citar Hitler para algum skinhead nazista, mas de forma alguma para afagar o seu idealismo estúpido, antes para demonstrar o quanto o que ele crê ainda que tenha alguma aparência de verdade é contrário a verdade.

O mesmo serve para os ateus. Bertrand Russel é ótimo para ser citado, principalmente pra mostrar o quando ateus são confusos e auto-contraditórios.

Citar um trecho da bíblia da Satã simplesmente para cativar o coração de um seguidor da seita de Anton Lavey e depois conduzi-lo a outra verdade não me parece ser semelhante ao intento de Paulo. (E também não penso seja o seu Bp. Hermes, mas a maneira como o texto está colocado, para mim permite essas conclusões).

Concordo plenamente que um dos nossos problemas é a presunção. Ou somos presunçosos dentro de igrejas como ativistas de um clube restrito, ou saímos achando que nós converteremos pessoas sendo simpáticos e evitando confrontá-las com a Verdade.

Eu sempre falho no segundo grupo, principalmente com amigos da faculdade, ateus em especial. Pela graça de Deus pude dar testemunho algumas vezes, mas oro muito para ter a ousadia de Paulo.

Podemos ser humildes e fracos na presença como o crente Paulo (2 Co 10.1), mas estamos numa guerra onde o nosso discurso, como o dele nas epístolas (2 Co 10.9,10) é de potência destrutiva contra tudo que é contrário ao conhecimento de Deus:

"As armas com as quais lutamos não são humanas; pelo contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas.

Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo". (2 Co 10.4,5)

Em todo caso deixo anotada minha posição, abraços!

Missionário Anderson disse...

Devemos "nos fazer de frios para ganhar os frios e nos fazer de quentes para ganhar os quentes", todas para Cristo!

lui disse...

Que belo artigo!E verdadeiro."Se eu tiver amor serei como o metal que soa ou como o sino que tine".Sem amor o que fica são só palavras desacompanhadas da ação.Para nada valem!

Postar um comentário