NO REINO DE SACRÓPOLIS


Levi Bronzeado


Sacrópolis é um lugar muito especial. Lá se reúnem gentes de todas as línguas e credos. Lá o Sagrado se reveste dos paradoxos mais chocantes. Os mais bem treinados são equilibristas que andam na corda bamba do saber divino. Lá, as utopias são ferramentas imprescindíveis para se abrir as janelas da realidade. Lá, a pura inspiração iluminadora é derivada da ausência de método, e a arte de pensar garante a liberdade de cada crente.

Em Sacrópolis a norma é romper com as formas pré-estabelecidas, onde cada um dá seu testemunho de sua tocante fidelidade aos suspeitos métodos de reinvenção para se olhar o Sagrado através de lentes caleidoscópicas.

Em Sacrópolis o anacronismo é a regra, onde os conceitos de épocas diferentes cruzam-se, colidem-se, e se desintegram. Lá o presente é condicional, e o futuro é um passado em mutação. A cada congresso ou concílio, o passado ganha um novo sentido pelo trabalho de reinterpretação do REAL. É uma região edênica onde é impossível abarcar toda a realidade. É de lá que saem as idéias à procura de corpos para se encarnar nos corpos dos homens científicos, filosóficos e religiosos. É pouco recomendável morar nessa cidade, a menos que se deseje andar a margem de si mesmo, como fazem os loucos e os poetas.

Lá em Sacrópolis não existe muitos deuses, mas inúmeras faces de Deus. Deus para o Físico desse Reino é massa e força; para o Químico é composto molecular; para o Psicanalista é o inconsciente; para o Teólogo é a transcendência. Em Sacrópolis a Ciência faz e não pensa, a Filosofia pensa e não faz; a Arte pensa fazer, e, todas juntas fazem pensar. Dizem que foi lá que Adão passou a sua infância, onde disse: “faça-se o queijo e o queijo se fez”. As fatias desse queijo, ainda hoje, produzem pensamentos, emoção viva e afetos brutos em seus habitantes.

Lá o Livro Sagrado tem multiplicidade de traduções, e ultimamente está em processo de destradução, para dar sentido ao que não tem sentido. É lá que se satisfaz o imperioso desejo de rechear as palavras com o vazio das traduções teísticas e ateísticas. É lá que as fábulas têm a moral de suas histórias abertas para qualquer interpretação.

Sacrópolis, por conseguinte, é uma força de expressão que designa o lugar concreto onde o pensamento e as idéias se criam, se renovam e se extinguem. Os seus habitantes são híbridos de carne e métodos. Nela se concentra o que se perdeu na realidade comum, ou que nem chegou a haver. Nela nada se cria, apenas se redescobre e se reinventa, num processo infinito de reencarnação conceitual daquilo que, nos primórdios já existia com outra roupagem.

Em Sacrópolis se vive o hoje, sem que ninguém saiba como vai acordar amanhã.


Publicado em Ensaios & Prosas, divulgação Genizah

3 Comentários

Oseas de Góis Oliveira disse...

Muito interessante a sua página na net. Vou aparecer por aqui mais vezes, pois tem muita coisa boa.

Parabéns!

Raquel disse...

O pior de Sacrópolis é viver sob o comando de Terra Nova, Feliciano e cia (i)ltda.

Hermes C. Fernandes disse...

Levi, como posso chegar a esta cidade? Não seria ela a mesma apresentada por um tal João, confinado numa ilha do Mediterrâneo? Não seria ela aquela cidade que não tem templos, mas tem praças?
Se é esta, acho que sei como chegar lá... basta ser criança outra vez e perder o medo de ousar imaginar.

Que texto esplêndido! Parabéns!

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http://www.genizahvirtual.com/2009/07/devemos-julgar.html

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