SE NÃO FOSSE O HÍFEN



Se não fosse o hífen,
guarda-chuva seria o fim dos alagamentos.
Um lugar que de tão grande, guarda chuva,
do que sobrasse de rios e lagoas,
e não só, substantivo comum nas garoas.

Se não fosse o hífen,
contra-ataque seria um estado de paz.
Um modo de ser de gente contra ataque,
de gente que luta para que se não lute,
e não a reação de responder o chute.

Se não fosse o hífen,
menino-de-rua seria só uma criança.
Alguém orgulhoso de ser de rua,
da cidade, de país, de lar...
E não o ser nu a desfilar.

Se não fosse o hífen,
palavra-chave seria só um ditado com “ch”...
E com mais uma ave, que não voa, a palavra chave.
Como todas, que sem se mover, são mortas,
e não segredo para se abrir caminhos e portas.

Se não fosse o hífen,
ponto-de-vista seria um lugar concorrido,
onde pessoas se juntam num bom ponto de vista,
para ver vales e ocasos...
E não a intransigência criando casos.

Se não fosse o hífen...
Cara-de-pau seria arte.
Carranca tirada do pau bruto, cara de pau.
Face que lá está e não se vê. Mágica...
E não a cara descarada. Cínica.


( Wilson Tonioli )




***
Li no Verticontes , o blog do Tonioli

2 Comentários

Raquel disse...

É um belo poema! Bastante subjetivo!
Se a ausência do hífen, um simples sinal gráfico, é capaz de alterar completamente o significado de determinadas palavras, o que dizer de outras subtrações?

cristiane disse...

Amei!!!
Além de bem-humorado (ou bem humorado? rsss), ajuda a refletir sobre esse item tão polêmico da língua.

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