terça-feira, 10 de novembro de 2009


  

Quando o conforto escraviza



Alan Brizotti


“Os iguais formam guetos”. (Provérbio latino)

O conforto se tornou uma espécie de deus da sociedade do consumo. Obviamente, não vivemos sem algumas doses de conforto. Seria anormal afirmar o contrário. Entretanto, há uma dimensão preocupante desses tempos: o conforto que escraviza. Quando esse tipo de situação acontece, estamos condenados a saciar uma fome que nunca acaba.

Guimarães Rosa dizia: “o animal satisfeito dorme”. A satisfação (entendida nesse contexto como conforto paralisante) carrega consigo os germes da escravidão. A mistura dessas “substâncias” é feita assim: a tirania absurda dos desejos, aliada aos apelos constantes, insistentes e manipuladores dos apóstolos do marketing, gera uma estranha obsessão por um “status quo” enganoso, uma espécie de malandragem existencial. Buscamos no conforto o que ele não pode produzir: paz! Engana-se muito aquele que acredita haver paz no conforto.

Não é por acaso que, uma das mais conflitantes sensações da experiência humana seja o tédio. A posse sem desejo. Essa sensação é visita constante dos que moram nos palácios. Parece até uma forma de ironia/compensação cósmica: quanto mais estrelas você alcançar, mais tédio sentirá. A chamada “sabedoria popular” trata esse “fenômeno” como “gente que tem tudo, mas não tem nada”. O gosto amargo da decepção. Giordano Bruno disse: “todas as coisas são feitas de contrários, razão pela qual não podemos experimentar nenhum prazer que não seja mesclado de amargura”. Bendito seja o tédio!

Algumas das pessoas mais amarguradas que conheço são as que vivem em função da manutenção de suas zonas de conforto. Jung chamou o vazio e a falta de sentido de “neurose geral moderna”. Gente que trabalha noite e dia no afã de possuir tesouros, mas não usufrui deles. Não experimenta a alegria de ver o crescimento dos filhos. Gente que não sabe o que é desfrutar o prazer de uma caminhada pelo parque. Gente que não vive, tenta sobreviver. Tudo em nome desse tal “bem estar”, ou “realização financeira”, ou ainda, “conforto”. Leões enjaulados. Crianças impedidas de brincar.

A constante exposição da mídia de uma espécie de “padrão perfeito de ser”, acaba gerando uma corrida em busca de adequação a esse “estilo de vida”. São os encarcerados pela epidemia midiática, a nova forma de escravidão. É aqui que se forma o gueto dos semideuses. À margem disso, uma gente tida por louca segue tentando driblar o caos proposto. Gente que acredita na vida, na arte, que não dispensa um fim de tarde, come chocolate lambuzando os dedos, insiste em se elevar para além dos muros da mediocridade. Gente que não fabrica sorrisos.

Devemos lutar por conforto, mas não podemos nos vender a ele. Sejamos senhores do conforto, ou, então, seremos seus escravos. Não é só uma questão de escolha, mas de sobrevivência. Não podemos amordaçar a alma em favor das “delícias” recheadas de cicuta, que a satisfação propõe.

Que o nosso conforto seja honesto. Que ele não ameace o mundo. Que não colabore com a destruição do planeta, tornando cinza a nossa Casa Azul.

Que o nosso caminho histórico seja pleno das realizações humanas, para que, confortavelmente, possamos dizer: “deixamos marcas não somente porque produzimos muito, mas também porque nos recusamos a destruir a vida”.

“A virtude de um homem é o que o faz humano”. (Aristóteles)


***
Alan Brizotti colaborando ativamente na subversão no Genizah

5 Comentários. Faça um blogueiro feliz, comente!:

Raquel disse...

Quanta sabedoria!
Bom para refletir e praticar.

Guilherme disse...

Muito bom Alan!

Muitas vezes me pego buscando esse conforto... pra depois perceber que não fico satisfeito... Que Deus nos livre de nossa própria mediocridade!

Abração!

Jefferson de Jesus disse...

é duro concordar mas como sempre a mesma verdade que liberta também faz doer, Esse fim de semana conheci um rapaz que passou 10 dias na Caxemira entre a Índia e o Paquistão, Dentista com consultório montado um bom carro e tudo mais, quer vender o carro fechar o consultório e voltar sabendo que ele pode ser morto por essa escolha e muitos de nós só pensamos na próxima compra...

Jonas Valente Sanfelice disse...

danilo da uma olhadinha no meu blog, postei um video que acredito que tu vai achar interessante
http://cristaosseguidoresdecristo.blogspot.com/

Danilo Fernandes disse...

Mano Alan! Muito bom este seu ensaio. Triste mesmo é ver as pessoas não se dão conta da sua escravidão até a hora derradeira. Para depois descobrirem que ainda lhes restará a eternidade servido a quem desde sempre veio para lhes afastar do bom e justo da vida...

Só em Jesus definitivamente somos livres!

Postar um comentário

Comenta! Elogia! Critica! É tudo para o Reino!

Considere o seguinte apenas: (1) Não publicamos criticas negativas de "anônimos". Quer criticar e ter a sua opinião publicada? Identifique-se. (2) Discordar não é problema. É solução, pois redunda em aprendizado! Contudo, com modos. Sem palavrão! (3) Nem tudo o que publicamos é de nossa autoria e, embora respeitemos muito a opinião do autor, podemos discordar em alguns aspectos. Nestes casos, se for para esculachar, vá ao blog deles, Risos. (4) Ofereça o seu ponto de vista, contudo, a única coisa que nós não aceitamos é esta doutrina barata do “não toque no ungido”, que isto é conversa para vendilhão dormir! Querendo aprender sobre o direito de julgar, leia este artigo:

http://www.genizahvirtual.com/2009/07/devemos-julgar.html

De resto, faça como os irmãos de Beréia e vá ver se o que lhe foi dito está na Palavra Deus!

E, se ainda assim, você continuar achando que a atitude diante de um falso profeta é uma admoestação "política" e/ou o silêncio constrito, devo lembrá-lo que os personagens aqui retratados já foram muitas vezes admoestados, em particular, e não se emendaram. Considere Atos 13:8:

Mas o mágico Elimas (este é o nome dele em grego) era contra os apóstolos. Ele não queria que o Governador aceitasse a fé cristã. Então Saulo, também conhecido como Paulo, cheio do Espírito Santo, olhou firmemente para Elimas e disse:

— Filho do Diabo! Inimigo de tudo o que é bom! Homem mau e mentiroso! Por que é que você não pára de torcer o verdadeiro ensinamento do Senhor?

Paulo não fraqueja quando está diante de um falso profeta, ele chama BarJesus (que significa filho de Jesus) de “Filho do Diabo”.

 
BlogBlogs.Com.Br Christian Topsites